Rurouni Kenshin é o dilema que não precisávamos ter.
Mais conhecido por aqui como Samurai X, o mangá Rurouni Kenshin recebeu uma nova adaptação na segunda metade do ano de 2023, que durou até o final daquele ano, ou seja, um anime em dois cours, totalizando 24 episódios, e que ainda esse ano (outubro de 2024) retornará às telinhas japonesas para dar sequência a história em uma nova temporada.
Acontece que, e se você navega na interweb em bolhas de otakus ou segue pessoas que comentam sobre cultura pop em geral já deve estar bem ciente disso, em 2017 o autor da obra original, Nobuhiro Watsuki, foi preso por posse ilegal de material pornográfico envolvendo menores de idade.
Na época do ocorrido o caso foi bastante comentado na internet brasileira com discussões a cerca de até aonde vai a separação entre o autor e a obra, questionando, principalmente, se devemos, podemos, ou se é minimamente ético consumir produções cujos autores fizeram ou fazem coisas que são publicamente detestáveis, sendo também levantado o caso da autora de Harry Poter, que é uma transfóbica militante com um discurso cada vez mais alinhado com a extrema-direita. Além de suscitarem casos de outros mangakas japoneses que praticaram crimes bem parecidos e que seguiram suas carreiras mesmo assim.
Nada diferente do caso em questão, visto que o próprio Nabuhiro não foi preso pelo crime, apenas foi condenado a pagar uma multa de mais ou menos seis mil reais e teve sua publicação atual pausada por um hiato de seis meses com a justificativa de que a editora estava dando a ele tempo para pensar em suas ações. O que não foi impeditivo para a sua principal obra está receber uma nova animação.
O que acaba deixando um sentimento de injustiça, de que a pena que o autor recebeu foi bastante branda para o crime que ele cometeu e nos faz questionar se a tal cultura do cancelamento tem algum impacto para além de pautar o assunto das redes sociais, até porque quem é cancelado, ao menos aqui no Brasil, acaba caindo só se for pra cima, recebendo mais visibilidade por ter se tornado o assunto da semana.
Aqui não me interessa discutir se a pena sofrida foi adequada ou não ao caso, isso é assunto de quem conhece a lei japonesa e que acompanhou o julgamento do caso. Se a lei japonesa é muito branda para esse tipo de crime, isso é um problema que interessa e de responsabilidade apenas dos japoneses, e, se a justiça japonesa aliviou a pena para o mangaka, aplicando uma pena menos grave do que impõem a lei, isso é tema pra quem atua, ou estuda, na área do direito debater, não é o meu caso.
O que interessa para eu e você que consumimos animes é, sabendo que o autor fez o que fez, vale mesmo assim assistir a essa nova adaptação? Eu posso, ou melhor, consigo assistir a essa obra de consciência tranquila? Vou conseguir curtir a animação apesar de tudo isso.
No meu caso a resposta é não.
Eu assisti a nova adaptação na época em que ela foi lançada e, cara, sinceramente, não dá pra tirar o gosto ruim que essa história deixa na boca.
Pode ser diferente para outras pessoas, realmente não sei porque, por bem ou por mal, a nova série não foi muito comentada por ai. Talvez seja porque os comentários não tenham chegado a minha bolha, talvez seja porque as pessoas só não quiseram assistir o nova anime, talvez quem resolveu assistir fez mais ou menos como eu, foi ver quieto? Não sei dizer. O fato é que essa nova adaptação acabou passando batido pelo público geral e não me pareceu ter gerado qualquer tipo de discussão a respeito da obra.
Além disso, a nova adaptação de Samurai X acaba entrando no grupo de readaptações de animes que a gente questiona se deveriam mesmo existir, no qual também incluo o novo anime de Tokyo Mew Mew, no sentido de que a nova adaptação não se configura em uma nova interpretação daquilo que já tivemos antes, uma releitura mais moderna de um conceito mais antigo, nem mesmo atualiza a animação com melhores designs de personagem e valores de produção, pelo contrário, em termos relativos a impressão é de que os valores da produção são mais baixos do que os da primeira adaptação.
É diferente do que acontece com o remake de Bartender, que apresenta a história em um formato muito mais de série do que o formato episódico da primeira adaptação, ou do atual anime de Spice and Wolf, que se propõem a adaptar mais da obra original e de uma forma mais fiel do que o anime de 2008, ou mesmo de Urusei Yatsura, que, apesar de não substituir a animação da década de oitenta por adaptar apenas as histórias mais marcantes do mangá, em nada deixa a desejar em termos de animação e serve como apresentação da obra às novas gerações.
Ainda se pode argumentar que, como a obra que Nabuhiro está atualmente publicando faz parte do universo de Samurai X, essa nova adaptação seria um passo necessário para adaptar a obra atual dele, o que justificaria a nova animação. Se esse for o caso, eu posso consigo entender porque é mais fácil atrair novos telespectadores com uma nova adaptação do que apenas reexibir a adaptação antiga. Entretanto, é difícil olhar para as duas adaptações lado a lado e não achar a anterior superior e todos os aspectos, principalmente em relação ao equilíbrio entre os momentos mais sérios e a comédia em Samurai X, que pra mim sempre foi o ponto mais forte.
Mas ai essa é a minha opinião, que é importante ressaltar, não podia estar mais enviesada.
Porque, e esse é o ponto que torna toda a situação ainda mais dolorosa pra mim, Samurai X é — ainda que não tenha sido o meu primeiro anime, ou que ele tenha seja o meu anime preferido de todos os tempos, ou que eu ache que ele seja uma obra sem igual que todo otaku, fã de anime, ou algo que qualquer pessoa com algum interesse em cultura japonesa ou animação tenha a obrigação de assistir — O anime que me fez virar otaku. A gente tá falando da obra que foi um divisor de águas na minha vida, foi com Samurai X que eu tive a realização do que era anime e de que eu gostava daquilo.
Então assim, não tem como eu olhar para uma obra que foi tão importante pra mim, ainda que numa época bem específica da minha vida, e não querer sentir algo positivo em relação a ela. E a nova animação em nada contribui nesse sentido.
Isso sem falar que saber no que o autor esteve envolvido nos faz olhar de uma maneira diferente para a relação entre Misao e Aoshi, que ainda não esteve presente na nova adaptação, mas que sempre foi um ponto de crítica e que depois desse episódio só deve ter ganhado mais força. E, ressalvo, sempre foi um ponto de crítica válido, mas antes ainda dava para olhar para esse elemento da obra e enxergar algo mais inocente, sem “maldade”, por assim dizer. Algo que não é tão fácil de se fazer agora. Se antes havia o benefício da dúvida, agora há o malefício da resposta.
De qualquer forma, eu ainda não sei se continuei a acompanhar essa nova adaptação, vai depender se der vontade quando sair, porque, apesar de tudo, a luta contra o Shishio ainda um dos pontos mais icônicos de Samurai X, então eu estaria mentido se dissesse que não estou, nem um pouco, curioso a cerca do como vão lidar com essa parte na nova adaptação.