Personagens OverPower Parte 2; a Forma do poder.

Marcelo Hagemann Dos Santos
15 min readAug 17, 2019

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Infelizmente não dá. Eu tentei. Mas não posso falar de poder sem botar a Megumin com capa.

Quando escrevi, lá em 2018, um texto falando sobre como personagens OP, ou Overpowered, não são vistos como um aspecto negativo de uma obra, e que na realidade o que é muitas vezes criticado pelos expectadores é a forma como esses mesmos personagens impactam a narrativa, ou como esses personagens são utilizados dentro dela. O que, por sua vez, pode ser tanto algo ruim como o próprio apelo da obra dependendo da forma como o autor trabalha esse impacto dentro de sua obra, e, é claro, dos próprios interesses do telespectador.

Para defender essa afirmação, explorei no texto lincado no parágrafo anterior as várias formas com que a relação de forças entre os poderes presentes em uma narrativa (olhando inicialmente como eles interagem entre si em vídeo-games) pode impactar a mesma. E indiquei que tanto relações de poderes desequilibradas e balanceadas possuem algo que as torna interessante, e que explorar esse algo é o que torna muitas obras, como por exemplo Boku no Hero Academia, envolventes.

Mas é claro, esse segundo texto não existiria se não estivesse faltando algo a ser respondido a cerca desse mesmo tema. Afinal, se no texto anterior falei sobre as relações entre poderes, chegou a hora de falar sobre os poderes em si. Por que, afinal de contas, o que torna certos personagens mais poderosos do que outros? E o que torna um personagem poderoso interessante?

E para responder essas perguntas precisamos primeiro entender basicamente o que são poderes, porque, bom, sabemos que personagens poderosos são aqueles que possuem bastante poder, mas o que é de fato um poder?

A resposta para essa terceira pergunta está na própria palavra poder, e como a utilizamos em nosso cotidiano. Sendo assim, quando falamos sobre o poder de algo estamos falando sobre uma capacidade, uma possibilidade, uma habilidade, uma permissão social e moral, ou um potencial desse mesmo algo.

Por exemplo, quando falamos que um motor de um carro é bastante poderoso, o que queremos dizer é que esse motor é capaz de produzir bastante aceleração para o carro, ou ainda que ele permite que o carro atinja uma velocidade alta, que tem força o bastante para puxar cargas bem pesadas.

Ou seja, poder nesse caso está bastante atrelado a performance do próprio motor, o quão de força ele é capaz de produzir, e o quão rápido ele consegue gerar essa força. Mas é claro, dependendo do contexto também podemos dizer que um motor poderoso é aquele que consegue resistir bastante impacto físico sem desgastar, ou ainda que ele é capaz de continuar funcionando mesmo em situações adversas como frio e calor extremo, baixa pressão atmosférica, impurezas no ar… E por ai vai.

Com isso podemos perceber que poder está relacionado com uma capacidade física, com uma potencial de realização de feitos e tarefas, uma resistência, uma adaptabilidade, ou versatilidade, a situações adversas, enfim.

Mas não para por ai, a palavra poder também indica algo que é ou não aceitável, ou possível, de acordo com uma convenção social. Por exemplo, quando falamos que alguém não pode dirigir sem carteira de habilitação não estamos dizendo que há uma obstrução física que torna impossível de alguém sem habilitação dirigir um carro. Não, mas sim que é contra nossas regras sociais, morais, ou mais especificamente nossas leis de transito.

Ou ainda, nesse mesmo sentido, essa palavra serve para indicar coisas que entram ou não entram na frente de nossos objetivos. Por exemplo; se alguém quer emagrecer essa pessoa não pode comer muitos doces, mas se for só de vez em quando, sabe, uma vez ou outra, sem entrar na rotina, ai pode.

E é claro, poder é bastante usado para se referir a influência social de alguém, ou ao grau de autoridade que alguém possui dentro de uma sociedade, ou estrutura política. Por exemplo, quando dizemos que um rei possui mais poder do que um de seus vassalos o que queremos dizer é que as ordens desse rei tem mais valor social do que a de seus vassalos, que mais pessoas acatam a elas, que suas ordens são equivalente a lei, que sua influência atinge um maior número de pessoas, e por ai vai.

Mas quando falamos que um rei perdeu o seu poder estamos falando que ele já não tem mais autoridade, que ele não tem o direito de mandar e desmandar em seu reino, e que há outra instituição, ou figura política que tomou o seu cargo, sua influência, ou sua autoridade dentro do espaço que lhe seria de direito.

Além disso, nossos poderes também estão atrelados a nossos traços psicológicos. Por exemplo, se alguém é muito agitado, nervoso, e ansioso, dizemos que “ele não pode ficar parado”, ou se essa pessoa é muito medrosa que “ela não pode ficar sozinha no escuro”. Ou ainda, se uma pessoa é determinada, corajosa, e não desiste nunca, dizemos que essa pessoa “pode superar qualquer desafio”.

Desse modo, ainda que nossa personalidade e nossa psique não seja um fator que crie um limite físico para o que somos capaz de realizar, ela influência diretamente no quão fácil conseguimos realizar certas ações, e sendo assim ela tem um impacto tanto positivo como negativo em nossas capacidades.

Por consequência, podemos perceber que poderes de um modo geral não apenas possuem uma natureza social, física e psicológica como também podemos notar que poderes não estão presentes apenas em narrativas que envolvem algum tipo de combate, disputa ou competição, e que esses estão presentes em todas as formas de narrativas. Seja em um drama, uma comédia ou ação, todo personagem possui suas capacidades, coisas que ele pode e não pode fazer dentro do contexto da obra.

Por exemplo, na temporada atual temos o anime de comédia ecchi Sounan Desu Ka? (Também conhecido como Are we Lost?), em que quatro garotas ficam isoladas em uma ilha desconhecida e aparentemente distante da civilização moderna após sofrerem um acidente de avião rumo a uma viagem escolar.

Dentre as quatro protagonistas, há a Homare, uma garota veterana no quesito sobrevivência que — em virtude do pai ser aficionado em explorar florestas e se perder constantemente nelas, junto da filha — possui todos os conhecimentos e habilidades necessários para sobreviver longe da civilização. Algo que a torna, naturalmente, mais apta, mais capaz, de passar por essa situação, ou seja, ela é mais poderosa nesse quesito em comparação as outras garotas, que são relativamente normais.

E é justamente nessa discrepância de poderes entre Homare e as outras garotas que Sounan Desu Ka? constrói tanto o seu humor como a sua narrativa. Enquanto Homare permanece calma em diversas situações e faz aquilo que deve ser feito para garantir a sua sobrevivência, as outras se desesperam, hesitam e fazem besteira, como qualquer outra pessoa faria naquela situação, o que provoca riso, aflição, desespero e empatia pelas personagens.

Outro exemplo, dessa vez da temporada passada, seria o bem recebido anime moe Hitoribocchi no Marumaru Seikatsu, que conta a história de uma garota bastante tímida que, ao se separar de sua melhor e única amiga ao mudar de escola, recebe a tarefa de se fazer amizade com todas as garotas de sua nova classe, e até completar essa tarefa, sua amiga, Kai, não falaria com a nossa protagonista, Bocchi.

O que torna Hitori uma narrativa tão cativante é justamente a dificuldade que a protagonista tem de se comunicar com as outras pessoas. Por ser extremamente tímida, até mesmo o mais simples dos bom dias se torna uma tarefa digna de comemoração por parte da protagonista. E é justamente dentro dessa falta de poderes da protagonista que o anime constrói o seu humor.

Se, por exemplo, a protagonista não tivesse essa dificuldade, e se ela fosse uma pessoa extremamente espontânea, a narrativa se tornaria completamente diferente. Mesmo mantendo a proposta inicial, de que a protagonista tem o objetivo de ser amiga de todas as suas colegas de classe, podemos imaginar que ela, sendo bastante espontânea, se enturmaria com facilidade com as outras alunas. Mas também podemos imaginar que sua espontaneidade não fosse bem vista por todos os membros de sua classe, e que algumas de suas colegas a vissem como falsa, mentirosa ou mesmo interesseira.

A partir desse ponto, conquistar a amizade daquelas garotas que não despertaram simpatia pela protagonista se tornaria o desafio da trama, o que por sua fez poderia se tratado de forma mais dramática que nosso anime base. Ao mesmo tempo, as próprias intrigas entre os vários subgrupos de amigos dentro da classe poderia ser outro obstáculo dessa protagonista, já que se tornar amiga de um grupo poderia significa na perda da amizade do outro. E a protagonista teria que conciliar-se dentro dessas intrigas para fazer amizade dos dois lados.

Ainda, se a nova escola de nossa protagonista fosse uma escola mista, em vez de uma feminina como é em Hitoribocchi, fazer a amizade fácil com os garotos de sua classe poderia dar a imagem de “garota fácil” para essa protagonista, o que também poderia se tornar outro obstáculo para essa personagem. Criando uma série de desentendimentos, em que amigas já próximas dela se afastariam da protagonista ao acharem que ela está roubando o seu namorado, ou interesse romântico, por mera diversão ou por realmente gostar do rapaz.

E, por fim, se trocarmos o elemento inicial do proposta do anime de uma melhor amiga para a pessoa que nossa protagonista ama chegaríamos a uma narrativa completamente diferente daquela que tínhamos inicialmente, muito mais próxima de um melodrama romântico do que uma comédia slide of life calcada inabilidade social da protagonista.

Claro, o meu ponto aqui é unica e exclusivamente mostrar que os poderes da protagonista estão intimamente ligados com os contornos de uma narrativa, e que uma boa obra é aquela que saiba explorar os poderes e as fraquezas de seus personagens, principalmente a de seus protagonistas. E não tenho a intensão de dizer aqui que essa outra proposta seria mais interessante, ou necessariamente melhor, que Hitoribocchi. Não, são apenas propostas diferentes. Mas quero aqui exemplificar o quão importante, ou relevante são as capacidades de um personagem, em particular o protagonista, para o bom desenvolvimento de uma trama.

Mas, obviamente, quando falamos em personagens OverPowered normalmente não fazemos a relação desse termo a narrativas que não envolvam alguma espécie de combate, ainda que seja possível ver discrepâncias de poderes nessas outras narrativas.

E para entendermos o motivo podemos olhar para o anime Sangatsu no Lion que em diversos momentos trabalha com a disparidade entre os poderes, as capacidades, de seus personagens. Em particular com os personagens Gotou Masamune e Souya Touji que são retratados pela trama como verdadeiras forças da natureza, jogadores extremamente talentosos, e que alcançaram um patamar completamente distante de força.

Em particular a discrepância de forças que entre Souya e Rei, o protagonista de Sangatsu no Lion, é muito bem trabalhada em toda a trama do anime. Apesar de não se enfrentarem de maneira direta, a mídia ficcional do anime sempre faz questão de comparar a carreira mediana de Rei com a fantástica de Souya, diminuindo todas as conquistas de Rei até então.

E é essa comparação entre as forças de Rei e de Souya que formula o sentimento de que Rei fracassou em sua carreira como jogador profissional de Shogi. Já que, apesar de estrearem em condições similares, Rei não alcançou nem sequer metade das conquistas que Souya conseguira com sua idade, sem mencionar que, em um confronto direto, é Souya quem é visto como melhor jogador.

Por outro lado, as habilidades de Rei se destacam com outros jogadores de sua geração, em particular os seus dois irmãos adotivos, Kyouko e Ayumu, que desistem de seguir os passos de seu pai e de se tornarem jogadores profissionais de Shogi devido da discrepância que há entre nas habilidades do protagonista com a dos dois.

Apesar disso, em momento algum Souya, Gotou, ou mesmo Rei, são vistos como personagens OverPower pelos telespectadores da série, tanto dentro como fora de um tabuleiro. E há algumas razões para isso.

A primeira e mais óbvia é a de que Shogi não é o que há de mais importante na para a sociedade daquele mundo. Apesar de ser uma das coisas mais importantes para o protagonista, ele é tratado, dentro da obra, como ele é tratado no mundo real. É um esporte (ou competição se você não considerar jogos de tabuleiro esporte) e o trabalho, o ganha pão do protagonista e de outros jogadores profissionais. Ter um bom desempenho no Shogi e em campeonatos é de fato algo importante, mas não é como se não houvessem outras questões tratadas pela trama.

Por outro lado, os personagens citados, apesar de bastante habilidosos, não são imbatíveis, e estão suscetíveis ao cansaço físico e mental, a falhas, e possuem fraquezas dentro dos seus próprios estilos de jogo.

E, óbvio, os poderes que os personagens de Sangatsu no Lion são poderes de pessoas normais, de gente como a gente, por assim dizer. Não é incomum ver pessoas bem habilidosas em jogos no mundo real. A capacidade de memorizar padrões, de pensar as possíveis consequência de uma jogada, de ler a estratégia de seu adversário através do tabuleiro, paciência, a habilidade de se manter calmo e concentrado na atividade, e a capacidade de arriscar e ser imprevisível são habilidades fundamentais para jogadores de Shogi, mas não há nada nelas que as torne surreais, que seja difícil de acreditar que alguém as possua.

Portanto, o que realmente torna um personagem OP dentro do contexto de sua obra, além dessa discrepância de poderes com os personagens que compõem a narrativa, é o tamanho do impacto que esses poderes causam, ou podem causar, no mundo da obra, e um certo grau de surrealidade, ou fantasiosidade, que esse poder possui.

Certo? Certo. Mas até aqui, foram citados apenas personagem com poderes normais, mundanos, nenhum deles possui qualquer forma de poder sobrenatural ou mesmo mágico. Entretanto, fiz questão justamente de citar apenas poderes comuns até então porque, na prática, todo poder mágico, sobrenatural ou fantasioso segue mais ou menos as mesmas regras, a mesma lógica, que os poderes normais.

Veja bem, poderes são habilidades e capacidades. E como tais, poderes podem ser adquiridos através de treino, estudo e prática — Afinal saber é poder — ou ainda podem ser habilidades natas, adquiridas a partir da própria concepção do indivíduo, ou despertadas naturalmente com o seu crescimento. Ou mesmo recebidas por outra pessoa, seja por hereditariedade, escolha do indivíduo que possuía tal poder, ou ainda o aval de sua sociedade. Mas também, esses mesmos poderes podem ser aprimorados, refinados, ou mesmo melhor entendidos por aquele que o possui através de seu próprio uso.

Por outro lado, poderes também podem ser perdidos, seja por serem passados adiante, pelo próprio desgaste natural do tempo (ou mesmo do uso) ou por serem esquecidos por seu portador pela falta de uso. E nesses dois aspectos, não há diferença entre poderes palpáveis daqueles que são mais surreais.

Por conta disso, a diferença que há entre um personagem OverPower interessante daquele que não é, se resumi em basicamente dois fatores; O modo como esses poderes acentuam a trama da obra, seus temas, e como tornam a narrativa mais interessante e envolvente; e é claro, um próprio valor estético que há nesses poderes, ou seja, se os poderes são de fato “mó da hora” ou não.

Em outras palavras, um personagem OverPower será interessante quando os seus poderes forem interessantes, ou trouxerem algo a mais para trama em vez de tirar dela. Seja tornando batalhas mais épicas, lutas mais grandiosas, momentos de tensão ainda mais tenso, e desafios ainda mais satisfatórios de serem vencidos.

Mas é claro, não há apenas uma forma única de se criar um personagem OverPower, ainda que estreitemos a análise a apenas animes de luta. E a forma mais simples delas é através da Força Bruta, de Raw Power, quando o personagem é simplesmente muito forte, e obviamente não falo apenas de força física propriamente dita.

Óbvio, um personagem capaz de destruir uma pessoa com apenas um soco (estou de olho em você, Saitama) naturalmente possui uma força pura e direta, e o mesmo pode ser dito para personagens que conseguem receber ataques sem nem sequer sofrerem um aranhão, ou aqueles que conseguem se mover rapidamente sem grande esforço.

Habilidades como poder mágico, capacidade de invocar magias e feitiços altamente destrutivos, ou ainda de utilizar essas magias com um maior potencial de destruição que os outros magos, também podem ser lidos como um poder bruto e direto. Da mesma forma como magos capazes de invocar magias defensivas mais resistentes que as demais serão vistos como mais poderosos nesse mesmo sentido, porque a magia desses só difere das demais em força, em um quantitativo de poder.

Do outro lado do espectro, estão os personagens que são poderosos pela técnica, pela precisão, pelo uso eficiente de suas forças. São personagens que não precisam de muito poder bruto para derrotar seus adversários, ou que são capazes de utilizar a força do outro contra ele mesmo. Ou ainda, que utilizam as características de suas técnicas ao seu favor em vez de pura e simplesmente o poder, a força, delas.

Por exemplo, se dois magos são capazes de criar lâminas de vento através de magia, ainda que um deles seja mais poderoso e coloque mais energia em sua lâmina de vento, se o outro for capaz de criar uma lâmina mais fina, com a energia mais concentrada que a do outro mago, a sua lâmina de vento será capaz de provocar cortes mais profundos do que aquela produzida com mais energia.

Por outro lado, se dois magos tentarem defender um desses ataques, ambos criando uma barreira a partir de sua magia, aquele que tiver maior controle sobre ela poderia bloquear, ou mesmo desfazer a lâmina, utilizando uma quantidade menor de energia, ou mana, em sua defensa em comparação com aquele mago que apenas concentrou o máximo de energia na trajetória da lâmina.

Tanto o poder bruto, como a técnica são habilidades que podem tanto serem apreendidas e desenvolvidas por seus usuários como podem ser um poder nato do personagem. Apesar de geralmente o poder bruto ser geralmente associado a um poder natural do personagem, e habilidades mais técnicas, e a habilidade de controle de força, estarem muitas vezes associadas ao treino e ao estudo, não há nenhuma regra que diga que esse deve ser o caso para todo e qualquer poder.

Ainda, todo poder possui algum tipo de condição de uso, um combustível, algo que o usuário precisa consumir, ter ou algo que deve ser realizado para que o poder possa ser utilizado por seu usuário. Por vezes a condição para o uso desse poder é seu usuário simplesmente querer, estar em um estado psicológico específico, estar sobre stress, ter acesso a algum tipo de material específico, a mana (ou qualquer forma de energia mágica). Ou mesmo condições mais complexas, como estar em uma situação específica, ter acontecido algo em particular, estar em um determinado tempo ou lugar… Por vezes o poder possui alguma limitação de usos diários, requer que o usuário esteja em boas condições físicas, etc.

Quando mais difícil de se cumprir as condições uso de certo poder, menos poderoso será tal personagem, pois nesse caso se cria uma não flexibilização de tal poder, já que elas normalmente implicam numa restrição de uso desse poder, por vezes tornando-o difícil de ser “ativado” ou mesmo criando uma consequência grave para o seu usuário, como a quebra de um braço, ou o esgotamento total, físico ou metal, de tal personagem. E, é claro, em toda condição de uso precisa ser fixa por toda a narrativa, conforme um personagem fica mais intimo com seus poderes, eles podem se tornarem mais fáceis de serem utilizados pelo personagem.

Por outro lado, nem todo personagem precisa ser limitado a um poder só. Claro, é muito bom ter excelência no domínio de uma técnica, de uma arte, ou de um tipo de feitiço, mas um personagem que tiver uma gama maior de habilidades, ainda que não seja tão exímio e nenhuma delas quanto outros personagens, possui um leque maior de possibilidades, estará mais preparado para combater situações específicas, e quem sabe pode ser capaz de combinar suas múltiplas habilidade para atingir melhores resultados do que os especialistas.

Por vezes, o próprio psicológico do personagem pode ser visto como um superpoder. Ser capaz de levantar, não importando o cansaço, ignorando todo o dano acumulado durante a batalha e continuar lutando até o último suspiro, não por serem muito resistentes, ou por aguentarem receber mais dano que outras pessoas, mas pela determinação e sagacidade de alcançar os seus objetivos.

Uma habilidade presente no mindset de muitos protagonistas shounens, e algo que os torna mais heróis se usado de maneira correta. E, ao mesmo tempo, uma capacidade também presente em certos vilões, que ajuda a ressaltar a sua obsessão com os seus objetivos, com sua ganância e com seu ideal perturbado de mundo.

Ainda, nem toda batalha, nem toda luta, nem toda guerra, é travada apenas com combates de um contra um, portanto, ter aliados, amigos, companheiros, ou até mesmo lacaios torna certos personagens ainda mais poderosos. Afinal, ter um parceiro de luta, alguém que cubra as suas fraquezas e empreste a sua força quando necessário torna mais fácil de derrotar inimigos ainda mais ameaçadores.

E é claro, aqui nem me refiro a uma espécie de poder da amizade que se materializa em poder bruto dentro de certos animes, ainda que esse possa ser enquadrado como uma espécie de poder social.

E por fim, uma última forma de tornar um personagem superpoderoso é dando ele a habilidade de apreender, ou aprender, novos poderes. Seja por ser um personagem carismático, sedutor, com ideais fortes e atrativos, sendo capaz de atrair pessoas para o seu lado, manipulá-las e ganhar novos aliados com facilidade.

Ou ainda pela capacidade de copiar, ainda que temporariamente, o poder de outra pessoa, de roubar o poder de seus adversários, como Rimuru de Tensei shita Slime Datta Ken. Por ter a capacidade de utilizar um item mágico, despertar alguma forma de poder devido a sua linhagem, ou de simplesmente pelo personagem ter determinação, disciplina, ou a facilidade de aprendizado, buscando sempre aprender técnicas e obter talentos novos pelo natural interesse pelo tema, ou por esse aprendizado ser necessário para alcançar os seus objetivos.

Se você quiser um pouco mais de leitura sobre o assunto, publiquei no final do ano de 2020 um terceiro texto sobre o tema, onde passo a abordar as formas como a presença de poderes pode impactar na apreciação de uma obra: Personagens OverPower Parte 3; a Beleza do Poder

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Marcelo Hagemann Dos Santos
Marcelo Hagemann Dos Santos

Written by Marcelo Hagemann Dos Santos

Rapaz de humor duvidoso que entrou essa de escrever sobre animes recentemente. Ex-aluno de filosofia e graduado em Letras, mas sempre estudando.

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