Otokonoko não é sinônimo para Trans
O título já dá o aviso: Otokonoko(男の子) não é o termo utilizado para se referir a um indivíduo transexual na língua japonesa e não deve ser entendido como um sinônimo para trans, muito menos lido dessa maneira e menos ainda usado dessa forma por nós ocidentais.
O terno significa literalmente “menino”, é comumente utilizado para se referir a garotos jovens e tem como antônimo o termo on’nanoko(女の子) que significa “menina”.
Acontece que no meio otaku existe um arquétipo de personagem associado a esse termo, que é o de um personagem masculino, geralmente jovem, que costumam ter um tipo de beleza mais associado com o gênero feminino e que não raramente se vestem com roupas típicas femininas, mas, apesar das aparência, são homens cis, que se identificam com o gênero masculino. Ou seja, são homens que divergem das expectativas que se tem a respeito do gênero masculino e que se desencontram com as tais normas de gênero. Seja pelo modo como se vestem, seja pela sua aparência física ou seja pela forma com que se expressam.
Exemplos de personagens que se encaixam nesse arquétipo são Ferris da série Re:Zero, Astolfo da série Fate e Rosado de Fire Emblem Engage.
Ai que o uso do termo acaba sendo no sentido de dizer “apesar da aparência feminina, é um garoto”.
E aqui eu espero que já tenha ficado claro o porquê dessa expressão não disser nada a respeito da condição de uma pessoa trans, porque eu não vou explicar de novo.
Dito isso, por que escrevo esse texto se essa é uma dúvida que poderia ser tirada só olhando em um dicionário?
Bom, há dois problemas relacionados ao uso desse termo e até a esse arquétipo de personagem.
O primeiro desses é, de forma simples, que há uma carência de representatividade de personagens trans nas mídias japonesas, de forma que quando surge um personagem que foge das normas de gênero, como os personagens já citados, eles acabam se tornando ícones LGBT+.
Por si só isso acaba não sendo um grande problema, porque eu não acho que todo personagem ícone LGBT+ precisa fazer parte, de forma explícita e canônica, da sigla para ser colocado nessa posição por qualquer que seja a comunidade. Por exemplo, não é porque um personagem é hetero que ele não pode se tornar um símbolo gay por qualquer motivo.
Ou, melhor ainda, um ótimo exemplo seria o caso da personagem Bayonetta do jogo Bayonetta que acabou se tornando uma diva drag. Apesar de ser considerada uma diva drag, ela não é entendida como uma personagem Queer, ou mesmo trans, ela é vista por todo mundo como mulher, talvez uma mulher bissexual (na pior das hipóteses ela é heterossexual em um mundo alternativo… não briguem comigo é o que tá no terceiro jogo da série), mas ainda uma mulher. Porém, o modo como a sua feminilidade é expressada de forma exagerada e toda a sua personagem é construída, de maneira até caricata, em torno da sua sexualização e expressão de gênero, ela acaba se tornando um ícone do tipo de representação de gênero que o drag busca emular.
Contudo, o que não dá para achar correto, e com personagens que são chamados de otokonoko isso acontece bastante, é ter pessoas exigindo que esses personagens sejam lidos como personagens trans e insistindo que esses personagens são de fato transexuais quando na realidade não são, o que geralmente vem acompanhado por a afirmação de que, por trás daquele personagem, havia a intenção de representar uma pessoa trans mas que os responsáveis pela obra não tiveram a coragem de fazê-lo.
E o problema aqui não é que essas pessoas em questão não estão respeitando o cânone da obra, como se isso fosse algo sagrado, pelo contrário, todo fã de algo tem o direito de reinterpretar qualquer aspecto de uma obra do jeito que bem entender e utilizar conceitos e ideias presentes nelas para criar as suas próprias — ou seja, fanfic — o que inclui a própria sexualidade e identidade de gênero de um dado personagem. Mas, quando um fã se utiliza desse direito deve haver a ciência de que ele próprio está indo além da obra e que ele não tem o direito de obrigar outras pessoas a seguirem o mesmo caminho.
Também não é o caso de fãs e consumidores de mídias japonesas não terem bons motivos para acreditarem que há uma espécie de pressão social ou mercadológica para que personagens trans sejam suprimidos de obras japonesas. Porque, apesar dos povos asiáticos terem uma maior facilidade para compreender e aceitar a existência de uma pessoa trans do que os povos ditos ocidentais, o Japão ainda é um pais ultra conservador, neocolonizado pelos Estados Unidos e que não é de hoje toma diversas decisões de cunho político na intenção de agradar o mundo externo, por assim dizer, o que afeta drasticamente o curso natural da cultura dentro do pais. E, como já disse, a falta de personagens trans em histórias japonesas é algo notável e muito possivelmente uma das consequências dessas políticas de ocidentalização do povo japonês.
Dito isso, o real problema de se ler personagens otokonoko como pessoas trans e de tentar impor essa leitura a outras pessoas é que por trás disso está a ideia de que qualquer pessoa que não se adequa às normativas do gênero ao qual essa pessoa fora designada é na realidade uma pessoa trans. Ou seja, há aqui a ideia de que ou você é uma pessoa cisgênero e se adequa a todos os preconceitos e expectativas referentes ao seu gênero (ou a grande parte deles), ou você é uma pessoa trans. O que, por mais que não seja a intenção, não tem muito cabimento.
Vale lembrar, as pessoas têm o direito de gostarem de um personagem justamente por ele ser cis e não se adequar às expectativas de gênero. Afinal, não é porque um homem gosta de coisas fofas, de rosa, de atividades e coisas delicadas, pratica crossplay, é um crossdresser ou se traveste (ou mesmo é faz dragqueen) que essa pessoa seja necessariamente um homem gay ou uma mulher trans. Homens heteros também podem ter uma ou outra característica ou gosto, em maior ou menor grau, que foge do que é esperado em relação ao seu gênero. E é a partir dessas pequenas divergências que essas pessoas acabam se identificando com personagens otokonoko.
E mesmo que não haja uma auto identificação com esses personagens, otokonokos são personagens que, em sua maioria, se expressão de maneira genuína e não se sujeitam às pressões externas. E há algo a ser admirado nisso.
Simultaneamente, também não dá para negar que esses personagens otokonokos são tratados, e muitas vezes objetificados, de uma maneira muito similar ao modo como os corpos de pessoas trans são, de modo que é natural que pessoas trans também se identifiquem com esses personagens e que desejem que esses personagens sejam lidos ou mesmo oficializados como personagens trans.
Um caso recente é o da personagem Bridget da série Guilty Gear, que até o jogo mais novo era apresentada como um personagem masculino que, devido a certas circunstâncias, era obrigada a se passar por uma mulher desde o seu nascimento e parte da sua trajetória no jogo se resumia a ele querer provar para os outros que mesmo vestido como uma mulher ele continuava sendo um homem. Porém, com o jogo mais recente a personagem passou a se apresentar como uma mulher trans.
Se sempre houve a intenção de Bridget ser uma mulher trans, ou se a personagem foi concebida como um otokonoko mas que, na intenção de agradar o público, ou de tornar o personagem mais interessante, se optou por alterar a personagem, pouco importa aqui. Afinal, faz parte de uma obra em constante construção, ou expansão, o ato de reler ou reavaliar elementos dessa obra, o que inclui modificar ou aprofundar o gênero e a sexualidade de um personagem, mas obviamente não se limitam apenas a isso.
Deixando isso de lado. O outro motivo que me faz escrever esse texto — e sim, tudo até então foi referente apenas ao primeiro motivo — está relacionado ao anime chamado Senpai wa Otokonoko que estreou nessa temporada, mais especificamente um comentário (ou seja, antes da Crunchyroll decidir remover os comentários dos episódios e as resenhas dos animes), se não me engano no primeiro episódio da série, que dizia algo na linha de “pra quem não sabe otokonoko é um trans”.
Como eu já falei, não é esse o caso. Nem precisava repetir. Mas existe sim um ponto interessante nisso, nessa afirmação categoricamente errada, mas bem intencionada, que é o fato de que o anime em questão trata da história de Makoto, que é uma pessoa que está no processo de se descobrir como uma pessoa trans. Ou seja, Makoto ainda se entende como um garoto, mas ele tem interesses “de menina”, se sente bem quando se veste como uma e, mais importante, ele se vê como uma pessoa estranha, “errada”, justamente porque não é assim que um garoto deveria ser, não é dessas coisas que um garoto deveria gostar etc. Em outras palavras, ele não se adequa às expectativas do gênero ao qual foi designado.
Ou seja, não está errado em dizer que o Makoto é um otokonoko, ele mesmo se refere a si dessa forma, porque no momento em que Makoto está ainda há essa dúvida de se ele é um garoto com interesses “femininos” ou se ele é de fato uma mulher trans que ainda não se entende como tal. Algo que pessoas trans costumam a se referir como “egg”[ovo], que é aquele período que a pessoa ainda não coloca em dúvida o seu gênero, mas que há sinais de que o gênero que foi designado a ela não é o seu gênero de fato.
E ai que mora o perigo, porque, por mais que seja circunstancialmente correto chamar uma menina trans que ainda se enxergar como um garoto de otokonoko, ou pelo menos há algum sentido nesse ato, assumir que todo personagem otokonoko é, necessariamente, uma pessoa trans que ainda não tem esse entendimento é cair na armadilha de enxergar as pessoas de maneira binária, a entender que quem não se adequa ao gênero (e as expectativas de gênero) que lhe foi designado é uma pessoa trans. O que, de novo, assumir que uma pessoa, que não se entende como trans, sofre de disforia de gênero pelo jeito que ela se veste, como ela se porta ou seus interesses é apenas preconceituoso.
Por isso eu acho importante deixar claro que, se uma pessoa, ou mesmo um personagem, se identifica como mulher, não se deve utilizar a expressão otokonoko para se referir ou mesmo descrever essa pessoa/personagem. Ao mesmo tempo, se um personagem masculino é descrito ou se refere a si como otokonoko, não podemos assumir que ele é uma pessoa trans. Porque não é isso que o termo significa.