Não, Isekai não é só Poderzinho!
Indo direto ao ponto, “Isekai” significa literalmente “outro mundo” na língua japonesa. O termo é formado pelo acréscimo do kanji 異 — que significa: Outro; Diferente; Estranho — por prefixação à palavra 世界 (sekai) que significa mundo e é utilizada da mesma forma que nós utilizamos a palavra “mundo” na língua portuguesa, ou seja, tanto no sentido de planeta como no sentido de universo, reino, dimensão…
Em outras palavras, isekai é todo o mundo que não esse* mundo, ou seja, o paraíso, o inferno e o purgatório são isekais por serem dimensões diferentes da nossa, assim como outros planetas são outros mundos. De certa forma, todo mundo ficcional é um isekai, porque, como nada do descrito em uma ficção ocorre/ocorreu em nosso mundo, o mundo da ficção não faz parte do mundo real no sentido literal da coisa.
*Entendesse “esse mundo” como o mundo referencial, o que comumente é o nosso mundo, o mundo em que vivemos etc…
Mas é claro, esse não é o uso do termo isekai que é normalmente atribuído a ele, quando fazemos o uso dele na língua portuguesa e quando utilizamos ele para descrever obras de fantasia, em particular animes.
Há basicamente dois tipos de mundos literários.
O primeiro grupo são o de mundos baseados no mundo real. São mundos nos quais se assumi que tudo o que se aplica ao mundo real também se aplica no mundo da ficção a não ser do que é estabelecido pela própria obra. Ou seja, qualquer slice-of-life, anime de romance, esporte, comédia, seja ele Yuru Camp△, Clannad, Haikyuu ou mesmo Shakugan no Shana, independentemente de conter elementos de fantasia ou não, no qual se supõem ser um mundo “como o nosso”, faz parte desse primeiro grupo.
E o segundo são os mundos de fantasia, são aqueles que são criados inteiramente pelo autor da obra, ou seja, não se presumi que as coisas sejam como no mundo real, pelo contrário, toda geologia, história e política do seu mundo só vai ser igual ou similar ao do mundo real se a obra assim estabelecer, porque, óbvio, não é porque o mundo é uma invenção que ele não pode emprestar elementos da nossa realidade em sua composição.
Por tanto, um Isekai, no contexto mais específico do termo, é um mundo de fantasia cuja obra também implica a existência do mundo real. Essa implicação pode se dar de diversas maneiras, a obra pode se passar por inteira em um mundo de fantasia e de repente apresentar objetos que se supõem terem vindo do mundo real, do nosso mundo. Mas a forma mais comum com que essa implicação se dá é através do protagonista, que vai de um mundo baseado no mundo real para um mundo de fantasia.
Essa ida também pode acontecer de várias maneiras, mas são três as principais:
O protagonista pode ressuscitar em outro mundo, ou seja, ele morre no mundo real e é revivido em outro mundo mantendo a sua aparência anterior (ex: Kono Subarashii Sekai ni Shukufuku wo!; Isekai wa Smartphone to Tomo ni.);
Transferido ou Invocado, é de forma simples o transporte físico do personagem para esse outro mundo, que pode ser tanto feito por magia, por uma falha espaço-temporal… vale aqui a criatividade do autor (ex: Zero no Tsukaima; Mondaiji-tachi ga Isekai kara Kuru Sou Desu yo?);
E, a mais popular (atualmente, pelo menos), é a reencarnação, em que o protagonista morre no mundo real e renasce em outro mundo, ou seja, começa a vida do início. (ex: Honzuki no Gekokujou; Mushoku Tensei)
Como títulos de anime têm se tornado bastante descritivos ultimamente, é comum ver animes com “isekai” no nome, assim como a palavra para reencarnação, 転生 (tensei ou tenshou), mas é bom lembrar que nem toda obra com um protagonista reencarnado será um isekai propriamente dito, se ele, por exemplo, morrer e reencarnar no seu mundo de origem, não há motivo para se falar de isekai. Como é o caso de Eiyuu-ou, Bu wo Kiwameru Tame Tenseisu: Soshite, Sekai Saikyou no Minarai Kishi♀.
Outro conceito tangente ao de isekai é o Urasekai (裏世界), que numa tradução livre seria algo como “mundo alternativo”. A palavra é formada como isekai, porém, com o kanji de lado reverso, atrás, outro lado, que também usado na palavra beco (路地裏; rojiura) 裏アカ (uraaka) — conta alternativa, ou o perfil fake de alguém— e 裏本 (urabon), termo usado para se referir ao submundo da pornografia japonesa, aquela que é distribuída ilegalmente, tanto pelo seu conteúdo como por descumprir as regras de censura das genitais.
Em outras palavras, Urasekai se refere a um mundo contido em outro, um lado sombrio, oculto, um espaço escondido e que não deveria ser sequer percebido pelas pessoas comuns. De certa forma, o mundo no qual a Alice de Alice no País das Maravilhas entra poderia ser considerado como um Urasekai, por estar contido em nosso próprio mundo, e em termos de anime Urasekai Picnic é provavelmente o melhor exemplo de um que explora o conceito. As próprias Backrooms, que ficaram populares nesses últimos anos, apesar do conceito não ser tão novo assim, são um tipo de Urasekai.
Por fim, ainda há aqueles animes que comumente chamamos de Isekai Reverso, que são obras que estão ambientadas em mundos baseados no real, mas que possuem personagens vindos de outros mundos, ou seja, de um Isekai. É o caso de Cop Craft e de Kobayashi-san Chi no Maidragon. Chamamos de Reverso porque é o contrário do que é o mais comum, que é o protagonista do mundo real ir parar em um mundo de fantasia.
A Área Cinzenta do Termo
Você deve ter reparado que a palavra “mundo” carrega consigo uma dada ambiguidade. Afinal de contas, mundo significa um todo, um agrupamento, um planeta, um universo, uma dimensão… Ele é uma totalidade de um certo referencial, por exemplo, quando falamos de “mundo ocidental” e de “mundo oriental” não estamos dizendo que o ocidente e o oriente fazem parte de planetas diferentes, ou que há uma divisão espacial, dimensional entre ambos que os tornam incomunicáveis entre si, mas sim de dois grupos que se distinguem por sua geopolítica, dois macrossociais distintos.
Essa relatividade do termo “mundo” também está presente no termo Isekai, o que levantas certas discussões a respeito do que deve ser considerado um Isekai e do que não deve ser.
O exemplo mais clássico dessa discussão é se Sword Art Online, e animes com propostas similares, deveria ser ou não considerado um Isekai, uma vez que os personagens da trama ficam presos em um mundo virtual, mais especificamente um vídeo-game.
A discussão existe porque esse mundo em questão não existe por conta própria, assim como ambientes virtuais que nós, pessoas reais, podemos acessar, ele existe porque há uma máquina, um computador, um servidor, no mundo real que roda um programa que através de um motor gráfico, motor físico, produz aquele mundo, permite que ele exista.
É diferente do que acontece em Overlord, por exemplo, em que o protagonista vai parar em um outro mundo com o corpo do seu personagem do MMORPG que ele jogava. Ou mesmo com o que acontece em Log Horizon, em que o mundo do vídeo-game ganha autonomia e deixa de ser um mundo meramente virtual para se tornar real, ou, em outras palavras, o mundo do vídeo-game se torna outro mundo de fato. Em ambos os casos, não há hesitação em chamar esses animes de Isekai.
Mas observe, por mais que esse mundo virtual exista apenas em função de algo que acontece no mundo real, ainda dá para chamar de outro mundo, portanto de Isekai. Assim como os mundos ficcionais existem porque alguém do mundo os criou, os inventou, logo parte do nosso mundo… continuam sendo outros mundos. É justamente por essa maleabilidade do referencial do que é um mundo que permite que hajam esses casos de um anime que pode ser tanto considerando um Isekai como não (e, para citar mais um, Itai no wa Iya nano de Bougyoryoku ni Kyokufuri Shitai to Omoimasu., também conhecido como BOFURI, entra nesse mesmo caso de Sword Art Online).
Outro exemplo de como a relatividade do termo mundo pode mudar nossa percepção do que é um Isekai é quando pensando no mundo como uma variedade de tempo, de estado. Explico, o mundo atual é um mundo, já o mundo antigo, o mundo romano, o mundo da Grécia antiga, era outro mundo.
Nesse sentido, o anime Dr. Stone pode ser encarado como um Isekai, pois os personagens veem de um mundo equivalente ao nosso mundo atual, e vão para um mundo pós-apocalíptico em que a natureza reconquistou a terra e todos (ou quase todos) os traços da presença da humanidade desapareceram. Apesar de se tratar do mesmo planeta, da mesma terra, apenas em períodos de tempo, o estado de coisas é tão diferente que podemos chamar de outro mundo.
Igualmente, o Japão Feudal do anime InuYasha pode ser tratado como um outro mundo apesar de tratar-se apenas de um passado do mundo real, ainda que uma versão fantasiosa desse passado, mesmo que haja uma conexão forte entre o presente da trama com o seu passado. De forma que é natural que InuYasha seja um dos animes mais comuns de serem citados como um dos Isekais antes da leva [mais] moderna, que acrescentou elementos de jogos de RPG a esses mundos de fantasia, além de priorizarem a temática de “iniciar uma vida nova” ou de “mudar de vida”.
Por outro lado, animes que se passam em outros planetas, ou que tenham personagens vindo de galáxias distantes, não são considerados isekais porque, se pensarmos a ideia de mundo como mais do que apenas um planeta, mas como um universo todo, não importa o quão distante sejam esses planetas, ainda estamos não falando de um universo distinto do nosso.
Isso tudo sem retirarmos a já mencionada exigência, que é sim artificial, apesar de útil, de haver um mundo referencial equivalente ao mundo real dentro da obra em questão para sequer mencionarmos o termo Isekai. Afinal de contas, não tem motivo para emprestar um termo de outra língua para descrever algo que podemos descrever perfeitamente com termos da nossa língua. Assim, da mesma forma que usamos Anime e Mangá para nos referir à animação japonesa e às histórias em quadrinhos japonesas (ou a animação e HQ com forte inspiração nestas) de forma mais específica, também temos um uso um pouco mais específico do que os japoneses quando utilizamos esse termo.
E aonde o Poderzinho entra nessa história?
Ai que tá meu querido, Poderzinho tem nada haver com Isekai.
Calma, eu sei. Você viu cinco animes com “isekai” no título e todos eles eram sobre personagem lutando e soltando poder um no outro até dizer chega. Beleza. Não dá pra negar que dentre os animes que são considerados como animes isekai boa parte deles é anime de Poderzinho.
Mas veja bem, o ponto desse texto é (além de explicar o conceito de isekai da forma mais específica possível) te dizer o seguinte: Isekai é uma ambientação, é onde se passa uma dada trama, é no máximo uma premissa ou mesmo uma temática.*
Com premissa entenda como uma parte da base de um argumento, no caso do argumento de uma narrativa. E temática é basicamente um assunto, uma ideia.
O que a obra vai fazer com essa ambientação, como a história vai se desenrolar, qual vai ser o principal apelo da obra, qual vai ser o gênero dela (comédia, romance, aventura, ação, drama, mistério), não depende, não é definido por essa ambientação. Muito Isekai é anime de Poderzinho (e sim, esse é obviamente o termo técnico), isso é, anime de luta em que os personagens utilizam alguma forma de Superpoder para lutar, porque muito do que é produzido em anime é assim, principalmente quando se fala de anime de fantasia, que é o recorte do qual o Isekai faz parte.
Pera lá, Isekai não é um gênero?
Não, Isekai não é um gênero, como já dito acima... mas é inegável que há uma subcultura associada aos títulos de Isekai mais recentes.
Estou me referindo ao Narou-kei (なろう系), ou simplesmente Narou, que é o termo utilizado pelos japoneses para fazer referência tanto a obras típicas do site Shousetsuka ni Narou (小説家になろう, que significa “Vamos nos tornar Romancistas”), que é um site focado em aspirantes a escritores de Light Novel e permite que os usuários publicassem seus próprios trabalhos, como a obras fortemente inspiradas no tipo de conteúdo desse mesmo site.
É um agrupamento de obras que não inclui apenas Isekais, mas histórias de fantasia num geral nas quais um protagonista, inicialmente um indivíduo normal sem nenhuma característica que o torne excepcional, vai adquirir algum tipo de poder extraordinário que não apenas vai dar uma vantagem clara a ele, como também vai mudar a sua vida por completo, ou algo minimamente parecido com isso.
É até mesmo difícil apontar uma característica clara do que é um Narou-kei. Pois, dizendo bem verdade, ele é mais um sentimento despertado por um conjunto de tropos combinado com a genuinidade autoral que apenas esses autores amadores têm do que algo mais concreto.
E acho importante ter mencionado esse termo antes de finalizar esse texto, pois é até comum ver pessoas, que falam Português ou mesmo Inglês, chamando de Isekai aquilo que os japoneses chamariam de Narou-kei. Mas fica aqui mais como curiosidade do que como informação útil, pois é até um termo sem uma definição muito clara.