Engage ou Three Houses, qual é o melhor Fire Emblem no Switch?

Marcelo Hagemann Dos Santos
31 min readOct 17, 2023

--

Logo de início, quero deixar claro que a intensão desse texto não é a de definir de maneira categórica e objetiva qual desses jogos é efetivamente o melhor dentre os dois, num sentido de que você, leitor, deve jogar um deles e não o outro. Pelo contrário, tanto Fire Emblem Three Houses como Fire Emblem Engage são tomadas distintas e igualmente válidas daquilo que define a série, de forma que cada um dos dois possui seus próprios méritos. E são igualmente recomentadas por esse tio que vos escreve.

Contudo, nem todo mundo vai ter disposição, acesso ou mesmo tempo para jogar ambos os títulos, isso sem mencionar que alguém que nunca teve contato com a série ainda não sabe se realmente quer investir tanto em dois jogos que, querendo ou não, possuem bases similares.

Portanto, a intenção desse texto é ajudar aqueles que, por qualquer motivo, precisam escolher entre um dos dois, ou, ao menos, entre priorizar uma das duas experiências. E como nem todo mundo busca as mesmas coisas em um videogame não há uma só resposta a essa questão que vá servir para todo mundo, uma vez que tanto Engage como Three Houses possuem pontos fortes e fracos em diferentes áreas, o que significa que uma pessoa que goste de um desses jogos não necessariamente vai gostar do outro.

Mas se você já conhece a série, já jogou a um ou a ambos os jogos, gosta desse tipo de exercício comparação e quer ler mais sobre o assunto, fique a vontade.

Meu primeiro Fire Emblem starterpack

O primeiro ponto a ser dito é que, com exceção aos jogos que são sequências diretas de outros, todo Fire Emblem é um bom ponto de entrada para a série.

Assim como os jogos da série de Pokémon, cada título se passa em sua própria região, possue conflitos e história própria, assim como seu próprio conjunto de personagens. De modo que o jogador não precisa ter qualquer tipo de experiência com outros jogos da série para tirar o máximo proveito de qualquer um dos seus jogos.

Eu mesmo comecei com Awakening no 3DS e desde então joguei todos os jogos da série e em nenhum momento precisei jogar os jogos antigos para apreciar os jogos mais novos.

Por conta disso, aqui, não há que se discutir qual dos dois é o melhor nesse ponto, pois qualquer que seja a escolha será uma boa escolha como primeiro jogo da série.

Com uma pequena ressalva que vou deixar para o final do texto, porque envolve um outro ponto que de jeito nenhum muda a conclusão desse tópico, mas ainda assim merece ser abordado.

Combate

Fire Emblem é uma série de jogos táticos em que o jogador controla um grupo de unidades, em um campo dividido em casas como em um tabuleiro de xadrez. Em Fire Emblem, cada uma dessas unidades é um personagem completo, com algum papel dentro da história do jogo, capazes de interagir com outros personagens e criar laços com eles, o que afeta sua performance em combate.

O combate de Three Houses difere dos outros jogos da série em alguns aspectos. Eu tenho um texto longo explicando como funciona as mecânicas de combate do jogo, mas aqui precisamos apenas destacar os pontos principais:

Primeiro, não há em Three Houses o que chamamos de Weapon Triangle, que é um sistema que dá vantagem a uma unidade em combate se ela enfrenta outra equipada com uma arma que a sua tem vantagem contra. Espadas são fortes contra machados, machados são fortes contra lanças, lanças são fortes contra espadas. Há outros jogos que expandem esse sistema inserindo mais tipos de armas nesse pedra-papel-tesoura, mas não é o caso de Three Houses. Aqui, se o jogador querer receber algum bônus contra inimigos equipados com algum tipo de arma, ele deve equipar uma habilidade que tenha esse efeito. O que significa que o Weapon Triangle existe como uma opção ao jogador, não uma obrigatoriedade como em outros jogos.

Segundo, as unidades do jogador podem aprender combat arts, que são ataques que consomem mais da durabilidade das armas, mas oferecem alguns efeitos extras, como maior dano, acurácia, efetividade contra tipos específicos de inimigos (como montaria ou inimigos trajando armadura pesada).

Terceiro, o jogador pode atribuir um battalion a cada uma das suas unidades, o que concede bônus aos seus atributos e o acesso a gambits, que são estratagemas especiais que permitem a unidade (num número bastante limitado de vezes por batalha) atacar inimigos ou curar aliados em área, dentre outras coisas.

E, por último, Three Houses possui um sistema de classes aberto, em que cada unidade pode adquirir qualquer uma das classes do jogo (com exceções) e transitar entre elas de forma livre, desde que cumpra requisitos de level e nível de proficiência que aquela classe em específico exija. O que é de interesse para o jogador pois ao utilizar uma classe em combate a unidade ganha experiência dentro daquela classe e quanto maximiza esse valor a unidade pode desbloquear habilidades e/ou combat arts que podem ser utilizadas mesmo se a unidade mude de classe, desde que o jogador decida equipá-las.

Diferente de Three Houses que permite ao jogador mudar suas unidades de classe livremente desde que os personagens tenham adquirido aquelas classes anteriormente, em Engage cada personagem pode ter apenas uma classe por vez e, para mudar de classe, precisa apenas cumprir o requisito de nível e ter adquirido proficiência nas armas que aquela classe utiliza, se o personagem não as tiver naturalmente (e precisa utilizar o item necessário para adquirir uma nova classe como em todo jogo da série, incluindo Three Houses). Além disso, cada classe possui uma habilidade específica, que não pode ser apreendida pelo personagem como em Three Houses mas precisa ser desbloqueada, ou seja, apesar de precisar adquirir o acesso à habilidade de classe, o personagem só poderá utilizar aquela habilidade se estiver naquela classe.

Além disso, classes em Engage são divididas em tipos, sendo que cada tipo possui características únicas que interagem com outras mecânicas do jogo. Por exemplo, classes do tipo Covert recebem bônus adicionais de evasão quando posicionados em uma casa que concede esse tipo de bonificação, enquanto classes do tipo Backup podem participar do combate de unidades aliadas próximas através de um chain attack, que é um ataque que provoca um dano percentual fixo e tem uma acurácia que também é fixa.

Também diferente de Three Houses, Engage não apenas tem o Weapon Triangle como uma mecânica integral ao jogo e expandiu para outros tipos de armas, como adicionou a possibilidade de uma unidade infringir a condição de Break à unidade inimiga se tiver vantagem do tipo de arma, o que impede que ela contra-ataque até o fim do próximo combate, ou seja, é uma mecânica que permite o jogador atacar um oponente duas vezes sem receber alguma retaliação por isso. Mas bom lembrar que essa mecânica não é exclusiva das unidades do jogador e é muito bem utilizada pelas unidades inimigas. O que torna unidades em classes do tipo Armor ainda mais valiosas, uma vez que são imunes ao break.

Mas o principal diferencial de Engage para qualquer outro jogo da série é o fato dos personagens poderem equipar Engage Rings, que são anéis lendários nos quais habitam espíritos de personagens chaves de outros títulos da série, incluindo Byleth, o personagem do jogador de Three Houses, Marth, protagonista do Fire Emblem original, Corrin, protagonista de Fates, Lucina de Awakening, Lyn de The Blazing Blade, Roy de The Binding Blade, Celica de Gaiden… dentre outros.

Cada Engage Ring oferece, além de um incremento nos atributos do personagem e acesso a novas habilidades, a possibilidade da unidade entrar em Engage com o personagem do anel, recebendo acesso a ainda mais habilidades, armas exclusivas daquele Engage Ring, além de ataques/movimentos especiais (similares ao gambit em Three Houses) que podem ser utilizados uma vez por Engage, que possui uma duração limitada em alguns turnos.

As habilidades concedidas pelos Engage Rings são realmente muito poderosas e saber utilizá-las no momento certo é fundamental para o sucesso do jogador em cada uma das missões. Além disso, ao utilizar um Engage Ring em combate, a unidade pode aprofundar o seu laço com o personagem do anel, permitindo aprender novas habilidades que, essas sim, podem ser equipadas de forma livre, indiferente de em qual classe ou de com qual Engage Ring a unidade estiver, além de ser esse o modo como a unidade consegue adquirir novas proficiências.

De modo geral, o combate de Engage é muito dinâmico e suas mecânicas lhe dão bastante profundidade. Sem dúvidas, Engage possui uma das melhores jogabilidades de toda a série, se olharmos apenas para o combate, e o desafio imposto pelo jogo é bastante alto, difícil mas não injusto.

Dentre os dois, Engage oferece mais elementos e trás ideias únicas à série, o que o torna mais interessante, mas isso não significa que Three Houses não seja um bom exemplo do como o combate de Fire Emblem é divertido e envolvente, ainda que seja embasado nas mesmas mecânicas que estavam presentes desde o nascimento da série no Famicon (conhecido por aqui mais como Nintendinho).

Monastério vs Somniel

O loop de gameplay desses jogos não se resume a ir de um combate para o outro. Em ambos, há um pouco de exploração e gerenciamento de recursos que deve ser feito antes de cada batalha.

Em Three Houses, pelo cenário escolar, cada capítulo representa um mês dentro da história, em que o jogador deve intercalar entre instruir suas unidades, permitindo que recebam pontos de proficiência conforme escolhido, e decidir dentre explorar o monastério, participar de combates adicionais, ir a um seminário ou descansar.

Explorando o monastério o jogador é capaz de interagir com vários dos personagens do jogo, incluindo mas não limitado às suas unidades, aceitar missões, participar de diversas atividades que permitem que o jogador aumente as proficiências da unidade do jogador, obter recursos e melhorar a motivação das suas unidades, o que é necessário para instruir as unidades no restante da semana.

Mais detalhes sobre a exploração do monastério eu já escrevi aqui. Mas, para essa comparação, o que deve ser apontado aqui é que o loop de gameplay de Three Houses se torna bastante cansativo por conta do modo como a exploração do monastério é, ao mesmo tempo, necessária para que o jogador obtenha a melhor performance no jogo, demorada e repetitiva.

Uma vez que o jogo deixa disponível todas as opções de exploração, não há nada de muito diferente a ser visto. E ter que andar de um ponto a outro, procurar onde cada personagem está, toda a vez que se quer explorar o monastério, ainda que haja opção se transportar para certas localidades, é sempre muito demorado e nada divertido. Se houvesse um menu em que o jogador pudesse realizar todas as atividades do monastério, interagir com os personagens e coletar os itens espalhados por ai, tudo poderia ser feito em questão de minuto, mas não, da forma que é, quando rápido, você pode esperar cerca de 10 até 15 minutos gastos por exploração.

Engage também sofre do mesmo problema, mas numa escala menor. Aqui não há o sistema do calendário, mas após cada batalha o jogador pode explorar o mapa onde o combate ocorreu, coletar itens que depois ele poderá usar para aprimorar suas armas. Depois disso, o jogador tem a opção de visitar Somniel, que é um castelo voador que funciona de forma bem parecida com o monastério de Three Houses, com a diferença de que aqui o jogador perde menos tempo, uma vez que o Somniel é significantemente menor do que o monastério, e boa parte das atividades de Somniel envolvem algum tipo de minigame, o que torna sua exploração menos tediosa.

Ainda assim, seria interessante ter uma opção de receber as recompensas das atividades (e os itens coletáveis) de forma automática, ainda que essa opção tivesse que ser desbloqueada através de algum tipo de desafio ou conquista, como terminar a história do jogo ao menos uma vez.

História

E falando em história, se tenho mais elogios e menos críticas para Engage do que para Three Houses falando do combate do loop de gameplay, quando se trata de história essa relação é invertida.

Dizer que Engage tem uma história fraca e rasa não é uma ação que demande muita reflexão e nem deve tirar o sono de ninguém a noite. É uma história que cumpre bem o seu papel de dar contexto a cada uma das batalhas do jogo e que talvez até tenha os seus momentos, mas não é um elemento do jogo que merece muito elogio.

Ela se resume ao protagonista acordar sem memórias em um mundo em conflito contra um dragão caído, iniciando uma corrida pelos 12 Engage Rings espalhados pelos quatro reinos do continente que são a chave tanto para vencer o dragão caído como para despertar a totalidade dos seus poderes. No seu desenrolar, o protagonista se junta a guerreiros de cada um dos reinos ao mesmo tempo em que encontra cada um dos Engage Ring e utiliza os seus poderes para superar desafios.

Se você sentiu alguma vibe de Tokusatsu (sabe, aqueles seriados japoneses de super-heróis que se transformam e são repletos de efeitos especiais e práticos, tipo Power Rangers) nessa sinopse, saiba que ela é ainda mais forte no próprio jogo, e não só pela história. Toda a narrativa, o modo como os diálogos são dramatizado, as coreografias, as poses, o modo como os Engage Rings são utilizados lembra muito o dos dispositivos de transformação dos heróis de Tokusatus. O que não é em nada negativo por si só, mas a falta de desenvolvimento dos personagens e da simplicidade da história acabam impedindo que ela tenha muito o que oferecer.

Three Houses por outro lado tem uma história muito mais complexa e interessante. Ela se passa em Fódlan, um país dividido em três territórios — o Império de Adrestian, o Reino Sagrado de Faerghus e a Aliança de Leicester. No centro de Fódlan fica o Monastério de Garreg Mach, coração da igreja de Seiros, liderada por Rhea, que serve como uma espécie de mediadora de conflito entre os três territórios e abriga a Academia de Oficiais, uma escola militar que recebe estudantes de todo o país, dividido eles em casas de acordo com a origem dos estudantes, sendo, assim, respectivamente: Black Eagles, Blue Lions e Golden Deers.

Por obra do destino, o protagonista acaba sendo designado a servir como instrutor de uma dessas casas, a escolha do jogador, transformando o protagonista no professor dos futuros líderes daquele país, Edelgard, Dimitri e Claude, e levando o jogo a seguir o ponto de vista de um desses personagens, dividindo a história em três rotas distintas, com uma bifurcação em uma dessas rotas (fazendo com que o jogo tenha na verdade quatro rotas).

É difícil definir apenas um ponto ao qual a história de Three Houses orbita. Em parte, pode se dizer que a presença de Crests* em Fódlan é um fator importante para todo o desenrolar da drama. Não apenas ele está ligado com a própria estrutura social do país, afetando principalmente o Reino, como estão ligados intimamente com toda a história de Fódlan e são o motivo pelo qual, mais tarde, Edelgard inicia uma guerra contra o igreja de Seiros, afim de por fim ao sistema de castas que coloca os portadores de Crest como naturais herdeiros de todo o poder político.

*Crests (brasões ou emblemas) são um poder hereditário presente nas linhagens dos nobres de Fódlan. Ele permite que o seu portador empunhe relíquias, que são artefatos poderosos no formato de armas, e extrair delas todo o seu poder.

O próprio passado do protagonista tem a sua relevância para a trama. Apesar de parecer alguém completamente alheio ao conflito de Three Houses, Byleth tem dentro de si um poder que não apenas lhe dá capacidade de alterar o futuro daquele país, como remete a um passado apagado dos registros da história, mas que ainda afeta o presente.

Mas o verdadeiro destaque da trama vai para o desenrolar da situação política do país, que se reflete nos dias da academia, em que o Reino teve seu antigo rei assassinato em um passado próximo ao início do jogo, o imperador de Adrestian foi vítima de um golpe de estado que retirou boa parte de seu poder, o transferindo para os ministros, e a aliança está em conflito interno para decidir aquele que será o seu próximo líder. Ao mesmo tempo, a autoridade da igreja tem sido desafiada por grupos rebeldes que buscam acabar com sua influência no país e por membros separatistas de um dos ramos da igreja de Seiros…

Enfim. A história de Three Houses é realmente uma das mais interessantes da série, guardando muitos mais detalhes do que inicialmente se percebe, um dos seus maiores males, porém, é ser mais ambiciosa do que o escopo do jogo pode oferecer, ao ponto de muito do que torna ela interessante acaba ficando apenas nas entrelinhas, sendo meramente mencionado ou apenas insinuado. Deixando buracos e muitas perguntas sem respostas. O que em parte pode ter sido causado pela necessidade do jogo ser lançado próximo ao lançamento do Switch, impedindo que os desenvolvedores retirassem da história todo o seu potencial. O que é um problema que a história de Engage nem sequer consegue sonhar em ter.

Personagens

Em Three Houses é difícil dizer se a história do jogo se reflete nos personagens, ou se os personagens refletem a história do jogo. Assim como é difícil definir a história de Three Houses em um só aspecto, o mesmo pode ser dito sobre os estudantes da Academia de Oficiais. Cada um tem a sua própria história e cada uma dessas histórias reflete um aspecto do mundo de Three Houses, seja o relacionamento dos Crests com o sistema de nobreza, a diferença entre o sistema de governança dos três territórios de Fódlan, a lore por trás do jogo, suas questões pessoais e personalidades únicas. O que ajuda, e muito, na construção do mundo. (Inclusive, eu tenho um texto abordando como alguns personagens possuem conceitos bem diferentes acerca do tema que chamo de Nobriedade)

Engage por outro lado não trás esse aspecto. Os personagens em Engage são, assim como a história, bem rasos. A grande maioria pode ser resumida a uma ou duas características de suas personalidades, não muito mais do que isso.

Os supports em Engage (que são séries de diálogos entre duas unidades do jogador) são bem mais simples e bobos do que os de Three Houses… o que não quer dizer que não haja alguns que sejam verdadeiramente divertidos ou emocionais, mas, além de poucos, exigem certo investimento do jogador para sequer alcançar esses momentos (já que para ter acesso a esses diálogos o jogador precisa desenvolver o lanço entre esses personagens levando eles para o combate e atividades segundarias), o que o fato da história não ser tão envolvente quanto a de Three Houses não ajuda muito.

Os personagens de Engage ainda assim tem o seu carisma, mas, de novo, é difícil de comparar com excelência do grupo de Three Houses.

Arte e Visual

Ok, esse é um ponto que vai depender muito do gosto de cada um. E não há como pensar esse aspecto de ambos os jogos de maneira objetiva… fora um ponto mais ao final desse tópico.

O visual de Engage é bem… anime?

Bom, Three Houses também é, mas o design de Three Houses é mais sóbrio, suave até, ainda que ele faça um bom uso de suas cores (tanto é que já usei os designs de Three Houses só para falar sobre o uso de cores em personagens) não dá para comparar o quão colorido e saturado são os designs de Engage. E não dá para dizer que um é necessariamente melhor ou mesmo mais interessante do que o outro.

Claro, Three Houses usa o design de seus personagens para dizer algo sobre eles e, principalmente, para guiar e depois trair nossas impressões sobre eles. Mas dizer que isso não se aplica, em parte, ao design dos personagens de Engage é uma conclusão apressada.

Como os personagens de Engage são mais simples, há menos espaço para fazer esse tipo de trabalho. Mas, por exemplo, ainda que seja algo básico, as cores do design do protagonista, Alear, não são por acaso, o que fica bem explícito pela trama, e a mesma lógica se aplica para Veyle, ainda que por um motivo distinto, mas que também fica bem óbvio quando conhecemos a personagem da fato.

O ponto que podemos fazer de forma objetiva é a execução dos visuais no jogo.

Eu posso dizer muitas coisas sobre o visual de Three Houses. Que gosto do design dos personagens, que sempre que volto pro jogo sinto que os gráficos não são tão ruins quanto eu lembrava… Mas uma coisa que eu não posso falar sobre o jogo é que o visual é coeso.

A aparência dos personagens muda de uma cutscene para outra, que também não é a mesma nos retratos, nas artworks e nem em seus modelos 3D. É até normal que esse tipo de coisa aconteça, principalmente pela capacidade do console e por limitações técnicas. Mas em Three Houses é mais um sinal de que o desenvolvimento do jogo foi apressado e faltou tempo de polimento.

Isso não ocorre com Engage, que usa os modelos 3D dos personagens tanto no mapa como nos retratos, e as cutscenes usam basicamente o mesmo modelo mas com uma maior qualidade de textura, as artworks têm um visual um pouco diferente que o restante do jogo, não muito, mas também só são utilizadas para uma função específica e, ainda que destoe um pouco com o resto, não é uma característica que atrapalhe na identidade visual do jogo como em Three Houses.

Ainda, como Engage trás para si personagens de outros jogos da série, há também a adaptação dos designs originais desses personagens para o estilo de Engage, que pode causar certa estranheza para quem está acostumando com os designs originais, mas em minha opinião foi uma transição muito bem feita, ainda que os personagens tenham ficado em geral mais “fofos” do que deveriam.

Também, o design de Alear, tanto sua versão masculina como a versão feminina, fora bem criticada quando o jogo foi anunciado, sendo os dois personagens rapidamente comparados com os visuais da Pepsi e da Colgate em tom pejorativo, principalmente por conta do cabelo. Entretanto, além desse design ter uma função dentro da pouca história do jogo, essa crítica não se repete aos outros personagens do jogo que não têm designs polémicos como o de Alear.

Replayabilidade

Não importa quantas críticas há contra Engage, eu amo esse momento do jogo.

Se você não tiver muitos jogos no seu Switch, rejogar aqueles que tem acaba sendo inevitável. E, nesse sentido, Three Houses tem uma vantagem natural sobre Engage pelo fato dele possuir três rotas distintas (ou quatro a depender de como se encara a divisão que uma dessas rotas pode tomar), o que não significa que a vitória de Three Houses é clara ou mesmo garantida nesse quesito pois, vale lembrar, ainda que haja um incentivo em Three Houses para o jogador revisitar o jogo e vivenciar o conflito central pelas lentes de outros personagens e por outro ponto de vista, uma parte considerável dessas rotas é praticamente a mesma em todas elas. Pode-se mudar os personagens que participam, mas os eventos dessa parte são sempre os mesmo.

Ainda, em Engage, a história é uma só e, como já visto, não é complexa o bastante para que, ao ser rejogada, o jogador se depare com um elemento novo que resulte em um aprofundamento na mesma. Diferente do que acontece em Three Houses.

Contudo, quando se joga um jogo novamente, não se está apenas se apreciando novamente a história desse jogo — em verdade, na maioria das vezes o jogador tende a ignorar completamente a história — , mas, principalmente, está se reexperienciando os elementos da jogabilidade, os desafios impostos pelo jogo. O que leva ao jogador a entender melhor esses elementos, encontrar novas soluções para os desafios e formas de otimizar as suas jogadas. Não atoa que a speedrun seja uma das modalidades mais populares de se rejogar um jogo (principalmente quando se trata de jogos de um jogador), pois, na prática, o que se está fazendo é se aprofundando no funcionamento do jogo para encontrar uma maneira de se terminar aquele jogo da forma mais rápida possível.

Nesse quesito, é difícil dizer qual dos dois tem maior rejogabilidade, pois ambos os jogos possuem uma gameplay divertida e há muito no que se pensar em otimização para concluir o jogo de forma rápida ou em poucos turnos. Claro, há a questão de que o monastério prejudica o loop de gameplay de Three Houses, mas também é natural que em uma speedrun o jogador decida por ignorar completamente essa parte do jogo, sacrificando parte da sua performance por uma redução no seu tempo.

Mas há outros pontos que merecem seus próprios tópicos e que afetam diretamente na rejogabilidade de ambos para além de uma speedrun, que são: customização, pós-game e DLC (sim, vamos falar de DLC).

Customização

Em síntese, diz sobre opções de personalização sob cada uma das unidades a disposição.

Considerando que a possibilidade que Engage nos dá de atribuir um Engage Ring a cada um dos personagens, somos tentados a dizer que Engage possui uma maior customização de personagem do que Three Houses. E pode ser que pensando apenas em um número bruto a quantidade de combinações entre personagens e Engage Rings dê um resultado muito grande.

Mas também é preciso pensar na qualidade, ou melhor, na expressividade dessas combinações em vez de só na quantidade delas, pois de nada adianta ter infinitas opções se todas as opções que se tem são muito parecidas umas com as outras.

E, nesse ponto, os Engage Rings não adicionam tanto à customização quanto parece em um primeiro momento. Porque, querendo ou não, cada Engage Ring tem o mesmo conjunto de armas, habilidades e bônus de atributos independente de quem os equipa. O que significa que cada personagem vai performar de forma mais ou menos parecida.

Sim, certos Engage Rings podem ter uma sinergia maior com as habilidades e atributos de alguns personagens e a classes específicas, até porque certos tipos de classe dão efeitos adicionais às habilidades dos Engages Rings, mas, uma vez que o jogador testou essas diferenças, há pouco de verdadeiramente novo para o jogador experimentar.

As habilidades pessoais dos personagens são pouco efetivas e as habilidades de classe também não impactam tanto o gameplay quanto o uso puro e simples dos Engage Rings, de modo que os personagens não se diferem tanto assim uns dos outros.

Já em Three Houses há alguns elementos que incrementam a customização dos personagens. O primeiro é o fato de que sim, muitas das habilidades e combat arts podem ser aprendidas por todos os personagens, mas elas devem ser aprendidas para que o personagem tenha acesso a ela e, como cada personagem tem facilidade e dificuldades de aprendizado em proficiências diferentes, cada personagem exige um esforço diferente do jogador em obter esses conjuntos diferentes de habilidade.

Por exemplo, para uma unidade que tem facilidade com machados e com montaria aérea é fácil seguir esse caminho e aprender as habilidades relacionadas a essas proficiências, mas isso não quer dizer que as habilidades de outras proficiências ou de classes que não envolvam machados e montaria aérea não valham a pena para essa mesma unidade. Ou ainda, que o jogador não possa desenvolver essas proficiências em uma unidade que tem dificuldade nelas.

Outro ponto é que, diferente de Engage e outros jogos da franquia, em Three Houses as unidades não tem restrição de uso de armas de acordo com a sua classe. O que significa que unidades especialistas em machado, por exemplo, ainda podem utilizar espadas e lanças, ou que arcos podem ser utilizados em classes que não envolvem essa proficiência. A única limitação nesse sentido é que a unidade precisa estar uma classe que permite o uso de magia para usá-la.

O que acaba abrindo mais opções ao jogador.

E, por fim, os personagens têm mais elementos para diferirem um dos outros em Three Houses do que em Engage. Em ambos os jogos os personagens possuem uma habilidade pessoal, e no caso das de Three Houses o impacto no jogo acaba sendo maior, mas também não por muito. Além disso, cada personagem tem uma série de habilidades e combat arts que só eles podem aprender, ou que poucos personagens podem aprender, o que dá a cada personagem algumas opções que são únicas a eles.

Por exemplo, a habilidade pessoal de Annette, Perseverance, permite que ela use a ação chama rally para dar um bônus temporário de 4 pontos de força para qualquer unidade aliada. Além disso, Annette pode aprender outras habilidades de Rally para dar também 4 pontos de velocidade e resistência e 1 ponto de movimentação, permitindo que ela haja como o que chamamos de Rally bot, que é uma unidade que não participa ativamente de combates e, em vez disso, usa o seu turno para fortalecer um aliado.

Mas Annette não é a única que pode ser utilizada dessa forma e essa é apenas uma única maneira de utilizar a unidade. Machados, principalmente os mágicos, são uma boa opção para ela, e ela ainda serve para o papel de maga ofensiva.

Claro, algumas unidades serão mais flexíveis do que outras, podendo assumir mais papeis com facilidade, enquanto outras terão poucos caminhos viáveis… ainda que Three Houses dê todos os recursos para que qualquer unidade atue em qualquer papel que o jogador queira, só que algumas dessas opções darão mais trabalho do que outras, mas são possíveis.

E esse é um ponto que torna Three Houses tão rejogável, pois não importa qual papel o jogador quer que suas unidades tenham, ou como ele pretende moldá-las, esse é um exercício que dura do início ao fim de uma Run, de modo que para testar novas possibilidades o jogador é levado a iniciar uma nova partida.

Pós-game

Um conceito muito comum em jogos de RPG é a ideia de pós-game, que se refere a toda aquela atividade, ou conteúdo, que está disponível [ou se espera que o jogador faça apenas] após o jogador concluir a história do jogo. Ou seja, é uma espécie de conteúdo adicional que envolve desafios mais complexos e mais difíceis, pensados para aqueles que querer ir além.

Em um sentido estrito, tanto Engage como Three Houses não possuem um pós-game propriamente. O que não significa que, após a conclusão da história, o jogador não tenha outras atividade que o permitam continuar jogando.

No caso de Engage, o jogador ainda pode se engajar nas mesmas atividades segundarias que lhe estavam disponíveis no decorrer da história que, por sua vez, podem se tornar desafios ainda mais difíceis do que o Boss final. Uma vez que, dessas atividades, os Skirmishes escalam proporcionalmente com as unidades mais poderosas do jogador e o jogador pode escolher livremente o nível de dificuldade no Tempest Trials.

Em contrapartida, Three Houses permite ao jogador criar um novo save após concluir o jogo em formato de newgame+. O que permite rejogar a campanha da história novamente com algumas vantagens.

Os detalhes eu já dei em texto só sobre esse assunto, mas de forma rápida é uma maneira do jogador jogar a campanha novamente com alguns recursos adicionais que tornam alguns dos desafios mais fáceis, mas permite ao jogador utilizar certas táticas e estratégias que não seriam viáveis em uma jogatina normal, dando mais liberdade ao jogador para ou jogar como bem entender ou esmagar seus inimigos com ainda mais facilidade.

DLC

Esse ponto pode parecer estranho de ser abordado aqui levando em conta a proposta do texto, mas se você tiver a oportunidade de pegar além de um desses jogos também a sua DLC, vale a pena abordar o tema, até porque o propósito de uma DLC é adicionar conteúdo ao jogo, o que pode implicar em mais horas de jogo e por ai vai.

Quanto a DLC de Three Houses eu tenho um texto só sobre se vale ou não a pena pagar ainda mais por esse conteúdo e a minha conclusão é a de que sim, se você ainda quer continuar jogando, ainda pretende rejogar as rotas várias vezes, acha a gameplay prazerosa por si só (e o preço não é empecilho), vale sim a pena comprar a DLC. Porque, além de uma campanha extra, a DLC adiciona mais atividades no monastério, novos personagens, novas opções de classe e dá acesso a novos itens e recursos e dão mais opções de jogabilidade ao jogador. O que é ótimo, nem precisava dizer. Mas só se o jogador realmente quiser continuar jogando Three Houses por mais tempo, já que a campanha extra sozinha não justifica a DLC.

Engage por outro lado também adiciona uma campanha extra, assim como novos personagens e opções de classe. Mas, mais importante, ele dá ao jogador a opção de obter ainda mais Engage Rings (chamados Emblem Bracelets) que, importante deixar claro, são em sua maioria significantemente mais poderosos do que os obtidos no jogo normal. O que, considerando que eles estão sempre disponíveis ao jogador, diminuem drasticamente a dificuldade da campanha padrão do jogo, ao ponto de tornar trivial até mesmo as dificuldades mais altas (relativamente falando, é claro). Muito mais do que qualquer recurso do newgame+ ou das DLCs de Three Houses que, por mais que deem ao jogador mais opções, são só isso; mais opções. Não deixam o jogo significantemente mais fácil e nem retiram dele os seus principais desafios.

É claro, para o jogador obter esses Emblem Bracelests ele deve primeiro vencer certos desafios (com exceção de um, que é dado ao jogador apenas por ele ter a DLC e ter avançado até certo ponto da história principal) e é necessário terminar a campanha adicional para ter acesso aos personagens extras da DLC, mas, depois que o jogador vence esses desafios, o restante do jogo se torna muito mais fácil.

O que só faz mesmo sentido se o jogador não se importar tanto para o desafio proposto por Engage e realmente se interesse pelo conteúdo adicional dessas DLCs. Mas, em minha opinião, isso é em parte deixar de lado algumas das melhores características de Engage e com certeza recomento, se realmente quiser pegar a DLC, o faça depois de experienciar o jogo sem ela. Diferente de Three Houses, cuja DLC não impacta o jogo principal tão drasticamente em termos de balanceamento.

Fator Three Hopes

Fire Emblem Warriors Three Hopes é um sprinoff de Three Houses, lançado apenas um ano antes de Engage, em que Byleth sai de seu papel como protagonista e é substituído por um personagem inteiramente novo, Shez, um mercenário que deveria ter sido apagado da história. O jogo mostra um cenário alternativo, em que Byleth nunca se torna professor da Academia de Oficiais e eventos chaves de Three Houses, principalmente os da fase escolar, deixam de ocorrem.

A história de Hopes acaba se tornando um ótimo contraponto à de Houses por basicamente dois motivos. Um, a falta das orientações de Byleth aos estudantes da Academia faz com que o desenvolvimento desses personagens não ocorra da mesma forma como no jogo original, fazendo com que eles se tornem mais parecidos com o que sempre foram.

O que não quer dizer que não haja desenvolvimento de personagem em Hopes, pelo contrário, há, mas vários personagens deixam de confrontar suas próprias questões, o que leva a não superação delas. Por exemplo, Ignatz nunca se dedica ao seu sonho de se tornar um artista e, em Three Hopes, acaba se tornando um cavaleiro a serviço da casa Gloucester, Marianne nunca se confronta a respeito da natureza do seu Crest e Bernadetta continua sendo uma hikikomori (reclusa) diferente do que acontece na segunda parte de Three Houses.

E, dois, os desenvolvedores aproveitaram a oportunidade e trabalharam certos pontos que não haviam sido tão bem abordados no jogo anterior. O que fica bem evidente quando vemos em Hopes personagens que em Three Houses haviam sido apenas mencionados, inclusive com um deles fazendo parte do grupo de personagens jogáveis, ainda que apenas em uma das rotas (e sim, em Hopes o jogador ainda pode escolher entre acompanhar a história pelo ponto de vista de Edelgard, Dimitri ou Claude). Resultando numa expansão da lore de Three Houses como um todo e num aprofundamento das motivações de cada um dos personagens principais de ambos os jogos.

Não é preciso jogar Three Houses para tirar um bom proveito da história de Three Hopes, pois tudo é bem contextualizado dentro do próprio sprinoff. Mas não há como negar que foi um jogo feito para os fans de Houses, principalmente os fans de seus personagens.

O problema é que, como é um sprinoff, Three Hopes não é um jogo tático como os principais jogos da série. Ele é um warriors ou, como é chamado no Japão, Musou. Que é um gênero que consiste em controlar uma unidade heroica, capaz de derrotar dezenas de oponentes com um só golpe, em um campo de batalha, lutando para conquistar fortes e cumprir objetivos.

Musou não é um gênero que agrada a todo mundo. Uma das críticas mais comuns a ele é que o gameplay é muito simples, que não há muito desafio nesse tipo de jogo e que o jogo é braindead, num sentido de que o jogador não precisa pensar muito para jogar. E de fato, musous têm um sistema de combate simplificado, as unidades lutam na base de combos com apenas dois botões, sendo que um deles resulta em ataques fracos e o outro em ataques fortes, que normalmente finalizam o combo. Mas o combate ser simples e fácil de entender não significa que o jogador não tem o que pensar sobre suas ações no jogo.

Não apenas a unidade do jogador pode ser atacada a qualquer momento, e por todas as direções, obrigando-o a prestar atenção ao movimento dos inimigos a sua volta, como o jogador precisa estar atento a tudo o que acontece em todo o mapa, aos objetivos da missão e aos inimigos que deverá encontrar. O que o obriga a priorizar certas batalhas, a encontrar as melhores condições de enfrentamento dos inimigos e, no caso de Three Hopes, posicionar suas unidades no mapa para garantir que elas enfrentem inimigos contra os quais têm vantagem. Caso contrário, o jogador perderá objetivos secundários, verá seus aliados sendo derrotados por unidades inimigas, e levará mais tempo para cumprir os objetivos principais, o que pode resultar em uma menor performance nos resultados da missão ou mesmo em não conseguir completá-la. Isso sem falar que o jogador deve saber quais combos são mais efetivos para cada situação de combate, ou poderá ter o seu personagem golpeado inúmeras vezes por utilizar um combo mais longo que a animação de ataque de um inimigo ou ainda perder mais tempo do que precisava em um dado combate.

Ainda, vale lembrar que o jogo não se resume ao que acontece dentro das batalhas. Em Hopes, por exemplo, o jogador deve equipar cada um de seus personagens com um número bastante expressivo de habilidades, cada uma delas afetando como a unidade performa em combate, definem modo como aquela unidade deve ser utilizada e são a diferença entre a unidade ser capaz de inferir muito ou pouco dano nos inimigos, ou ainda, quantos ataques diretos ela consegue receber antes de ter seus movimentos interrompidos pela animação de dano, ou o quanto de dano ela pode tomar antes de ser derrotada.

Ainda assim, Musous não são jogos difíceis. Basta que o jogador saiba o que está fazendo e entenda os limites das suas unidades para ser bem sucedido. O que torna esses jogos excelentes para se jogar enquanto ouve música, escuta um podcast ou conversa com os amigos.

De qualquer forma, Three Hopes é um musou excepcional, com uma boa variedade de inimigos e de possibilidades de moldar as unidades, o jogo recebeu elogios até mesmo de quem não é muito fan do gênero. Além disso, ele adapta muito bem as mecânicas de Houses ao mesmo tempo que resolve muito bem a questão do loop de gameplay com uma fase de exploração muito mais rápida e objetiva. E, como cereja no bolo, Hopes apresenta gráficos e uma coesão visual bem melhores que a de Houses, sem perder a identidade artística do original.

Engage, uma Homenagem

Engage foi inicialmente concebido para ser um título comemorativo aos 30 anos da série. Porém, em virtude da pandemia provocado pela covid-19 o jogo fora posto na geladeira e lançado bem depois da data inicialmente planejada.

Isso não significa, porém, que o jogo foi pensado apenas para os veteranos da série. Como disse no começo do texto, ainda que ele seja um título festivo, ele é um bom ponto de entrada para a série. Os próprios desenvolvedores já falaram em entrevista que o jogo também foi pensado para jogadores que nunca tocaram em um Fire Emblem antes e para jogadores das novas gerações.

Mas não dá pra negar que muito do apelo do jogo está no fato dele fazer referência aos jogos da série, assim como pelo fato dele trazer personagens de diversos jogos. Algo que, querendo ou não, é menos interessante para quem não é familiar com os personagens da franquia.

Tudo bem, a presença desses personagens pode despertar interesse nesses outros jogos da série, mas Fire Emblem já tem um jogo, ainda mais acessível, que faz muito bem o trabalho de apresentar os personagens da franquia a novos jogadores que é o jogo para smartphones Fire Emblem Heroes, que além de conter uma grande quantidade de personagens de todos os títulos da série, incluindo personagens originais de sprinoffs como o já citado Hopes e Tokyo Mirage Sessions #FE, também tem sua própria gama de personagens originais que recebem design de ilustradores como Yusuke Kozaki, que anteriormente ao jogo foi responsável pelos designs dos personagens de Awakening e Fates, e Yoshiku, que trabalhou em outros jogos com foco em mobile como Honkai Impact 3rd, Azur Lane e LayereD Stories 0.

De modo geral, Heroes apresenta-se como uma versão simplificada de jogos da franquia, com mapas muito menores e unidades com menos movimento, mas que carrega consigo muitos dos elementos da série como o já mencionado weapon triangle. E apesar de ser um gacha, o jogo não requer que o jogador coloque dinheiro no jogo para ser bem aproveitado uma vez que ele é bem generoso com a possibilidade de aquisição de orbs que são necessárias para invocar novos heróis.

Por isso, não considero que ser um título comemorativo da franquia configure argumento convincente para alguém preferir adquirir Engage no lugar de Three Houses, pois Heroes cumpri melhor esse papel, além de ser de graça.

Conclusão

Depois de todos argumentos postos nesse texto podemos concluir que Engage possui melhor jogabilidade do que Three Houses, é de modo geral um produto melhor polido e tem um loop de gameplay menos cansativo, enquanto Three Houses é mais rejogável, tem uma história bem mais complexa, interessante e profunda do que a de Engage, personagens com profundidade e mais carismáticos, além de um sprinoff que conversa muito bem com o jogo original e só ressalta as qualidades de Three Houses, mas que não vai ser de agrado de todos os fans da série.

Com isso, é fácil querer resumir ainda mais e dizer que, se você só se importa com a jogabilidade, Engage é a escolha certa. Enquanto se você também se importa com a história, Three Houses é uma melhor opção.

Contudo, ainda que se considere a afirmação do parágrafo anterior como válida, é necessário apontar que ambos os jogos possuem pontos negativos que, eu espero, tenham ficado claros no decorrer desse texto, mas os pontos negativos de Engage são verdadeiramente frustrantes. Não importa o quão bem polido seja o jogo, o quão excelente seja o gameplay em Engage, não dá para olhar para ele e afirmar “Engage é um bom jogo” sem ter a vontade de querer fazer uma ressalva quanto a falta de uma melhor história. O que deixa um forte amargo na boca.

Enquanto em Three Houses, o gameplay pode não ser tão bom quanto o de Engage, mas ele definitivamente não é ruim. E ainda que a questão da exploração do Monastério seja no mínimo irritante, ela só vai se tornar um problema depois que o jogador tenha jogado bastante o jogo, talvez só depois que ele já tenha concluído ao menos uma rota. E quando chegar a esse ponto, o jogador ainda tem a opção de ignorar boa parte dessa exploração, se focar apenas no que é essencial e nos outros elementos do jogo que são muito bons. Ou seja, até certo ponto dá pra deixar de lado.

E isso me deixa muito triste sempre que penso em Engage. Porque ele poderia muito bem ser celebrado como um dos melhores jogos do Nintendo Switch, o que não é pouca coisa. Mas, infelizmente, e não importa o que tenha levado a essa decisão, a falta de uma história mais complexa, com pontos que levantassem mais discussão a cerca do jogo, acabou fadando-o a um esquecimento rápido, inclusive pela própria comunidade de fans da franquia.

--

--

Marcelo Hagemann Dos Santos
Marcelo Hagemann Dos Santos

Written by Marcelo Hagemann Dos Santos

Rapaz de humor duvidoso que entrou essa de escrever sobre animes recentemente. Ex-aluno de filosofia e graduado em Letras, mas sempre estudando.

No responses yet