Consumo Indireto e o contexto Capitalista
No contexto atual, o termo “consumo” é um termo fortemente associado com a vida no sistema capitalista. Dia após dia somos bombardeados de propaganda que refletem uma ideologia consumista em que ser é ter e viver é comprar.
Nesse contexto, somos constantemente instigados a nos expressar a partir de nosso próprio poder aquisitivo, comprando produtos que reflitam nossos pensamentos, ideias e preferências pessoais, seja nas camisetas de banda, naquela lâmpada no formato do cogumelo do Mario, nas coletâneas de jogos e livros, ou no estilo de carro que dirigimos.
Você não é um fã de verdade de Star Wars se não tiver ao menos uma camisa estampada pelo Darth Vader, um DVD de cada um dos filmes clássicos, e uma ou outra figure dos personagens da série… quanto mais se gasta, mais se prova como fã… ou pelo menos essa é a lógica que nos é apresentada.
Essa ideia exacerbada de que precisamos comprar e obter para nos auto afirmar, contudo, não é o único significado que a palavra “consumo” carrega consigo.
Se você já leu alguns de meus textos anteriores, e talvez aqueles que eu publique depois desse, é bem provável que já tenha me visto utilizar esse termo para se referir ao ato de assistir a um anime, ler um livro, ouvir uma música, e por ai vai.
Sempre que faço o uso desse termo procuro, mentalmente, me distanciar da lógica capitalista e o penso como o ato de digerir algo, absorvê-lo, experienciá-lo, fazer dele parte de si mesmo. Nesse sentido, quando você consome uma obra, não está apenas recebendo um input bruto dela, mas dando a ela um significado e a reconstruído dentre suas próprias conexões neurais.
É um ato ativo, pois não acontece sem que o telespectador esteja presente nele, e por vezes se estende para muito além do contato imediato com a obra em questão. Um conceito que eu já abordei quando falei de imersão em Essa tal de imersão.
Claro que sei que não consigo comunicar essa fuga do contexto capitalista de forma plena, mesmo sabendo do quê quero dizer quando falo em “consumo de uma obra”, não consigo, lendo o que eu mesmo escrevo, escapar daquela imagem de uma caixa de suco sendo rapidamente sugada por alguém que a joga fora logo em seguida, como se ao ver uma série, uma única vez, o telespectador venha a absorver tudo aquilo que aquela obra em específico tenha a oferecer, e que revisitá-la seria o mesmo que comprar aquele mesmo suco uma segunda vez, sem a possibilidade daquele que bebe o suco absorver algo diferente do que estava na caixa anterior.
Essa imagem que temos do ato de consumir uma obra não poderia ser mais errada. Nenhuma obra é uma caixa fechada, cujo conteúdo está completamente isolado do restante do mundo, sempre que vemos algo fazemos comparações, associações e criamos significados a partir dos diversos símbolos presentes na obra a partir de nossas experiências e de nossos conhecimentos prévios sobre eles, por vezes para além daqueles pretendidos pelo autor tanto de forma consciente como de forma inconsciente.
O que acontece quando alguém consome uma obra é, na verdade, duas coisas: A primeira é o ato de transcrever o que o telespectador vê, ouvi e sente para sua memória, para depois criar significados a partir dos detalhes e elementos da obra que foram absorvidos a partir de suas capacidades sensoriais.
O que significa que o quão profunda será a absorção de uma obra vai depender, também, de duas coisas. Um, de quantos detalhes o expectador conseguir absorver da obra, o que obviamente requer atenção, e a qualidade do significado que essa pessoa construir a partir desses dados, o que vai, obviamente, depender da capacidade de raciocínio de quem estiver consumindo a obra e até de um pouco de criatividade, das emoções que serão produzidas no contato com a obra, além da muito falada bagarem cultural. Afinal, para fazer associações o consumidor vai precisar de algo com que associar.
Isso é o que eu chamo de consumo direto, é o que acontece durante o contato pela obra e em decorrência dele.
O que acontece, porém, é que o consumo de cultura não termina apenas com o contado com a obra. Não há, como naquela imagem anterior, um descarte da caixa de suco.
Não, o quê o telespectador absorveu e o que ele construiu de significação desse input recebido não simplesmente desaparece ou é jogado fora pelo indivíduo de forma imediata após o termino de um filme ou ao fechar um livro. Claro, muito pode ser esquecido, ou guardado em “regiões” profundas da memória e que são de difícil acesso, mas é bem provável que muito do que foi criado durante desse processo seja usado posteriormente, tanto na construção da bagagem cultural desse indivíduo, e então sendo reutilizado no consumo de obras futuras, ou em outras atividades.
Dessas outras atividades está o que, finalmente, chamo de consumo indireto.
O consumo indireto é tudo aquilo que não envolve o contato direto com a obra que está sendo consumida, mas o seu processo é bem parecido com o consumo direto da obra. Ou seja, também vai incluir a absolvição de um input, que pode ser uma imagem ou fala de alguém, mas que dessa vez não virá da obra consumida, mas relacionada a ela, e que, aqui, também pode incluir a produção de um output, ou seja, não necessariamente para na produção de significado sobre a obra, de forma mental, mas também pode envolver na produção de alguma coisa.
E é nesse momento que percebemos que o consumo indireto é, por vezes, muito maior e talvez até muito mais significativo do que o consumo direto. Pois ele está no meme, na fanfic, na fanart, no cosplay, nas especulações a respeito de uma obra — de seus significados, da sua narrativa — , nas reviews, nas conversas mais casuais, em nossas piadas, nas referências presentes em outras obras, nos trailers e outras peças de marketing...
Vivemos em um mundo em que a intertextualidade está presente em nosso cotidiano, e isso é maravilhoso pois expande, e muito, nossas possibilidades de consumo e de produção artística. Estamos o tempo todo revisitando, resignificando e expandindo nossa própria bagagem cultural a partir da interação social. Que no meio digital nunca estive tão, igualmente, interativa e dinâmica. Colocando a arte como centro de nossas interações e da construção de nossas comunidades e afinidades.
E engana-se você se pensa que participa desse consumo indireto apenas aquele que, de fato, tivera um contato direto com a obra. Não é esse é caso. Afinal, o contato indireto com algo ainda é uma forma de contato. Mesmo que não tenhamos consumido uma série específica, ao ter contato com tudo aquilo que é produzido com base nessa obra, podemos criar uma opinião sobre ela, um conhecimento, ainda que parcial, sobre os seus temas, seus recursos narrativos e personagens. Tanto é que somos capazes de dizer se uma obra é ou não de nosso agrado mesmo sem ter consumido ela, ainda que, por vezes, essa impressão possa ser desmentida mais para frente. E temos a possibilidade de criar uma grande familiaridade com coisas que, teoricamente, deveriam estar fora de nosso repertório cultural.
O que, completando o círculo desse texto, nos faz voltar ao consumismo capitalista. Afinal, por bem ou por mal, o consumo capitalista também é uma forma de consumo indireto. Pois ele nasce do desejo que temos de continuar em contato e de nos rodear com aquilo que gostamos, o mesmo desejo que nos leva a produção da intertextualidade no nosso dia-a-dia.
E isso não precisa ser tomado como algo necessariamente ruim. Afinal, não há nada de errado em comprar um produto de algo que gostamos se isso foi feito de forma genuína, com responsabilidade econômica, e não apenas para se mostrar. Pois uma figure, ainda que inserida nessa lógica do consumo, ainda é uma escultura criada e projetada por alguém, e pode ser admirada como uma peça de arte independente do seu contexto de produção.
O que não dá é ficar medindo a paixão pela arte com base no poder de compra de alguém.