Construindo Mundos com o Isekai do Livro

Marcelo Hagemann Dos Santos
6 min readDec 17, 2019

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End Card do primeiro episódio de Honzuki no Gekokujou. Ilustrada por Shiina You, artista da Novel e também responsável pelo design original de Sakurada Reset.

Falar que não houve um verdadeiro boom de isekais da metade da década de 2010 pra cá é ignorar aquilo que está óbvio na frente de nossos olhos. Com cinco animes abordando esse tema apenas nessa temporada(isso sem contar a continuação de SAO, Dr. Stone e Mairimashita Iruma-kun, que sob um ponto de vista os dois podem ser considerados como isekais, ainda que fujam das convenções do gênero) e com outros anunciados para o início da próxima década, é difícil imaginar que essa tendência suma tão cedo na mídia, ainda mais considerando que é justamente fora dos animes (Light Novel’s e Mangás) em que se encontram o volume verdadeiramente expressivo desse gênero — dado a maior facilidade de publicação amadora (seja pela facilidade de se publicar pela internet, ou pela forma quase que predadora com que editoras buscam possíveis novos sucessos) e o aspecto de paródia que essas obras possui (do qual já falei no final do ano passado) — e que, por bem ou por mal, boa parte das animações japonesas são adaptações de títulos oriundos de outras mídias.

Além disso, devido a natureza do tema, Isekais acabam resolvendo uma questão que muitas obras envolvendo alguma forma de mundo imaginário, fictício ou inventado, sofrem. Que é introduzir ao leitor, telespectador ou jogador, de maneira interessante, ao mundo da obra. Afinal de contas, justamente por não se tratar de um mundo do qual quem está consumindo a obra conhece previamente, é necessário que o autor explique algumas das particularidades de sua criação, o que pode levar a verdadeiras páginas de wikipédia voltadas a explicar de forma detalhada características daquele mundo fantástico, prática normalmente chamada, numa conotação negativa, de info dump (ou despejo de informação). Quebrando, na maioria das vezes, com a fluidez da narrativa e podendo levar ao desengajamento do público com obra. (E por consequência a não imersão na obra, assunto desse pequeno texto aqui)

É claro, há várias estratégias de evitar que esse info dump ocorra quando se está expondo as particularidades de um mundo, e as mais fáceis de se identificar envolvem justamente o protagonista, ou por quem o expectador acompanha o traçar da trama. Ou mais especificamente, o nível de conhecimento desses personagens em relação à metafísica do mundo. Quando menos o personagem souber sobre o funcionamento, e organização, do universo em que se passa a trama mais fácil se torna introduzir esses elementos de maneira natural ao expectador, afinal, ele e o protagonista aprendem sobre as particularidades do mundo ao mesmo tempo, de forma que esse aprendizado passa a ser mais orgânico, e integrado a própria narrativa. Apesar de muitas vezes autores disfarçarem info dumps de diálogos entre uma quantidade pequena de personagens, ou por vezes monólogos.

Por isso, é bastante comum ver em obras de fantasia a figura do estrangeiro, da criança ou do desmemoriado ocupar o espaço de protagonista, pois são justamente as pessoas com conhecimento de mundo mais próximo do expectador. Mas também é possível ver indivíduos com alto grau de conhecimento de mundo ocuparem espaços centrais na trama, incluindo o de protagonista, principalmente quando sua função é a de educar alguém, seja professores, tutores, guias, instrutores ou mesmo figuras maternais. Quanto mais natural for o ato de ensinar o funcionamento do mundo a outras pessoas melhor. Como vemos em Tensei shitara Slime Datta Ken (ou Isekai do Slime) em que o protagonista ocupa o lugar de estrangeiro naquele mundo enquanto o Daikenja ( 大賢者) — Algo como grande sábio em japonês — ocupa o espaço de explicar as coisas… MESMO.

Mas é claro, nem sempre os autores fazem bom uso dessa estratégia. Afinal de contas, um info dump dado através de um diálogo ainda é info dump, e pouca diferença faz, para o expectador, se aquilo é novidade para o protagonista ou não.

Felizmente, nessa temporada temos um ótimo exemplo de como essa construção de mundo pode ser feita de maneira natural e gradativa, acompanhando o andamento da narrativa e revelando as particularidades do mundo conforme elas realmente são necessárias para trama, sem quebrar com o fluxo natural dela. Estou falando é claro de Honzuki no Gekokujou: Shisho ni Naru Tame ni wa Shudan wo Erandeiraremasen ou como muitos (eu incluso) gostam de chamar: Isekai do Livro.

Main (ou Myne na tradução oficial), como toda boa protagonista de isekai, é a reencarnação da ordinária cidadã japonesa Motosu Urano, cuja morte se deu por aquilo que mais amava: sua própria coleção de livros, que a soterrou durante um terremoto. Simultaneamente, a garota de mesmo nome (Main) é a filha mais nova de um soldado e uma costureira, de corpo frágil e saúde instável, cuja mente fora consumida por uma estranha doença, tornando-se um receptáculo vazio antes de nossa protagonista assumir o seu lugar. Essa situação por si só faz com que Main seja tanto uma estrangeira naquele mundo (ainda que detenha as memórias da antiga Main) e seja uma criança nos olhos dos outros personagens da trama, ainda que antes de renascer ela deveria estar em seus vinte e poucos anos.

Sendo sincero, se fosse apenas pelo primeiro episódio de Honzuki, eu muito provavelmente não estaria escrevendo esse texto, ao menos não da forma ou com o mesmo objetivo. Afinal de contas, é um episódio bastante instrumental, que tem a clara intenção de apresentar a personagem da Main e sua grande obsessão por livros (muito mais pelo objeto livro do que pelo conteúdo dele) e estabelecer o objetivo da protagonista naquele novo mundo; o de criar os seus próprios livros, já que numa sociedade de baixo letramento, em que boa parte da população é analfabeta e livros são artigos de luxo, esses acabam se tornando praticamente uma exclusividade da nobreza (malditos nobres). E a forma como esse início apresenta as características básicas daquele mundo e a situação inicial da protagonista é exaustivamente expositiva.

Entretanto, a partir do segundo episódio as coisas mudam de figura. Com o objetivo da protagonista bem definido, Main começa aos poucos a aprender sobre o mundo ao seu redor, buscando um meio de produzir seu tão querido livro com as tecnologias, ferramentas e recursos que estão disponíveis para uma garota de sua idade. Sempre que somos introduzidos a um novo elemento daquele mundo, ele está relacionado diretamente com os objetivos de Main e com aquilo que está acontecendo com ela, e os personagens que a rodeiam, naquele momento.

Por exemplo, não descobrimos sobre o ritual de batismo apenas por ser um elemento da cultura daquela cidade, ou por um estranho ter contado sobre ele para nós, mas porque Turi, irmã mais velha de Main, está prestes a ser batizada, e esse não é um evento que passa batido pela trama logo depois de testemunhá-lo, não, o próprio fato de Main ter decorado o cabelo de sua irmã com uma flor de tecido é um detalhe importante mais para frente. Ou quando somos introduzidos à terrível planta que suga todos os nutrientes do solo e que cresce incontrolavelmente, o trombe, não sabemos de sua existência porque Main encontrou um livro sobre a planta, ou pela contação de história de alguém, mas porque a protagonista encontrou uma semente da planta por acaso, e viu o estrago que ela pode provocar com os próprios olhos (ainda que isso não seja o suficiente para a fazer descartar a ideia de cultivar a planta para produzir papel). Também, quando Main encontra um mapa da cidade é natural que ela se interesse por ele, afinal, numa cultura em que o uso da escrita (o que inclui a cartografia) é tão escaço um objeto como esse acaba se destacando, abrindo a oportunidade perfeita para falar um pouco sobre a geografia da região e a organização da própria cidade.

E ainda mais chamativo que isso é a própria doença da qual Main sofre (e que matou a Main original), a consumação, é que constantemente sugerida no decorrer da trama. Uma doença pouco conhecida pela maioria das pessoas, dada a sua mortalidade, sem cura definitiva, cujos portadores dependem de artefatos mágicos para sobreviverem aos seus efeitos. Ela é explicada em dois momentos diferentes da trama, por dois personagens distintos, que introduzem a suas próprias perceptivas da doença, numa visão mais fatalista da doença, e outra de alguém que tem que conviver e lutar contra ela diariamente para continuar vivendo.

Em ambos os momentos, a explicação da doença não serve apenas para pincelar aquele mundo com uma cor mais sombria. Afinal, é a enfermidade que atinge nossa protagonista, e até o momento a maior vilã da trama. Mas esses dois momentos insinuam qual é a batalha que Main terá pela frente, o que ela terá que fazer para impedir que aquele corpo perca o seu segundo habitante.

Dessa forma, o Isekai do Livro consegue introduzir os elementos de fantasia e as particularidades de seu mundo ficcional de maneira natural e integrada a narrativa. Com cada elemento novo introduzido por ela sendo essencial para o seguimento da trama.

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Marcelo Hagemann Dos Santos
Marcelo Hagemann Dos Santos

Written by Marcelo Hagemann Dos Santos

Rapaz de humor duvidoso que entrou essa de escrever sobre animes recentemente. Ex-aluno de filosofia e graduado em Letras, mas sempre estudando.

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