Colocando os Otakus fedidos em forma

Marcelo Hagemann Dos Santos
9 min readSep 13, 2019

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Coloca esse corpinho pra suar, maluco!

Essa nova safra de Julho de 2019 acabou pegando muita gente de surpresa devido a condensa quantidade de Hype presente no ar das discussões que rodeavam cada uma das novas estreias. E, dada tamanha empolgação causada pelo impacto inicial da temporada, nada menos surpreendente que o fato de que certos títulos acabaram decepcionado algumas pessoas, sendo pelo conteúdo presente em dadas obras ou mesmo por uma repentina queda da produção de outras. Ao mesmo tempo, certas histórias acabaram cativando o público, e essas acabaram conquistando maior espaço nas discussões dentro da comunidade.

Entretanto, algo que ninguém esperava é que, dentre tantos títulos promissores, um anime sobre garotas colegiais frequentando uma academia iria entrar no hall da fama da temporada, gerando uma quantidade considerável de memes e um certo consenso de que, apesar da proposta duvidosa do anime, ele é uma série bastante divertida dentro do seu escopo, com piadas nonsense que agradam bastante o público, informações e curiosidades sobre o mundo da malhação e do exercício, e seguimentos de Zumba que convidam o telespectador a fazer exercícios simples, mas eficientes.

E é claro, aqui eu estou falando de nenhum outro senão nosso querido Dumbbell Nan Kilo Moteru?. Mas, apesar de tudo, essa não é a primeira vez que o Japão nos entrega essa curiosa combinação entre garotinhas de animes e exercício físico. Na verdade, ela já existe há algum tempo.

Talvez você não conheça a Hinako ou seu infame anime, mas é bem possível que você já tenha se deparado com esse gif navegando por ai.

O primeiro anime de treinamento muscular, ou que eu gosto de chamar de “anime de Zumba”, é na realidade um OVA de 2009, Issho ni Training: Training with Hinako. Em vinte minutos de animação, acompanhamos nossa protagonista e única personagem desse OVA em uma série de exercícios bastante básicos e reativamente bem conhecidos, com alongamentos, flexões, e agachamentos. Em que, constantemente, Hinako interage com o telespectador em meio de sua rotina, um tanto quanto erótica, de treinamento.

Mas não parou por ai. Como se não bastasse essa primeira ideia estranha para época, Hinako recebeu o sucesso e a popularidade (ao menos para os produtores da série) que precisava para ela ganhasse outros dois OVAs seguindo essa mesma linha de interação com telespectador como uma câmera POV na maior parte do tempo. Dessa vez afastando-se um pouco da ideia de zumba.

No primeiro, lançado no início de 2010, o telespectador é convidado a dormir junto da Hinako, ou, se essa ideia não lhe soa creep o bastante, a assistir Hinako dormindo. Que por sua vez tem alguns hábitos noturnos bem questionáveis, para dizer o mínimo, e consegue dormir de maneira tão sensual e erótica quanto quando ela faz seus exercícios. Creio eu que a escolha de acompanhar o movimentado ciclo de sono da Hinako tenha sido feita porque de fato é deveras importante dormir bem para manter a saúde em dia, não é mesmo?

O segundo foi lançado no final do mesmo ano, e dessa vez somos convidados para tomar banho junto de Hinako e uma amiga, o que definitivamente não tem como não soar errado. O que é também dever ser bastante importante porque, ao se exercitar, você naturalmente fica suado, sujo, e precisa se limpar, afinal, higiene é bem importante… E, acreditem, eu escrevi esse segmento ANTES desse tweet se tornar popular— E é claro que ninguém vai acreditar em mim porque né, o rapaz aqui fica segurando, e postergando os textos em vez de publicar eles.

Mas por mais bizarro isso pareça, o fato é que a existência de Issho ni Training não deveria ser surpresa para ninguém por um grande motivo: Waifus.

Isso mesmo, Hinako não surgir por um acaso. Ela esteve presente em um momento em que waifus estavam em acessão, foi mais ou menos nessa época em que Vocaloid estava em alta, em que jogos como Love Plus fazia parte dos jogos mais populares dentro da cultura otaku. Existia, nessa época mais do que em todas as outras, a demanda por mídia que permitisse uma interação mais direta com o mundo 2D, com a personagem que estava do outro lado da tela.

Não é por acaso que Hinako se veste do modo desajeitado, casual, e inegavelmente erótico nas três peças de sua trilogia, e não é por nada que ela constantemente chama a atenção do expectador e até chega a “beijá-lo” em dado momento. Porque, bom, era isso que o público otaku queria, e de certa forma, Issho ni Training foi uma maneira até que engraçada de atingir essa demanda.

Claro, essa série de OVAs está longe de ser uma obra, ou um acontecimento, incrível. Mas é inegável que ela abriu um precedente, que foi um primeiro passo para um casamento que, relativamente falando, tem dado certo nos dias de hoje. Ainda que seja muito difícil de dizer o quanto os outros títulos presentes nesse texto tenham sido influenciados por Issho ni Training, ou se ele foi um fato importante para que essas obras viessem a existir, serem produzidas ou adaptadas para anime, o fato é que ele existe e foi o primeiro.

Caso vocês estejam se perguntando, a Akiko Tachibana (também conhecida como Shion, ou a Chuuni do anime) é a melhor garota.

Passado alguns anos, lançado em 2015, Anitore EX é o que mais se aproxima de Issho ni Training, e volta e meia é considerado como o seu sucessor espiritual, e leva a sua proposta mais a sério que qualquer outro anime já levou. Ele é, essencialmente, um anime de Zumba com waifus direto ao ponto, em cada episódio de 4 à 5 minutos o telespectador é convidado a acompanhar as aspirantes a Idols em seus exercícios diários, acompanhando elas em seu treino para definir o corpo e o espírito.

Anitore é exatamente aquilo que se espera dele, uma série de episódios curtos em garotas fofinhas falam sobre e fazendo exercícios variados (de simples alongamentos até yoga, exercícios de aquecimento, fortalecimento muscular e até alguns passos de dança), especificando quais partes do corpo são utilizadas em cada um deles, com uma mistura de erotismo — que nem de perto chega ao nível presente em Issho ni Training — e vergonha alheia que torna tudo mais divertido, e ao mesmo tempo doloroso, de se acompanhar. E deu certo o bastante para que a série recebesse, além de 5 especiais, uma segunda temporada no final de 2016.

Yama no Susume, por outro lado se aproxima muito mais de um slice of life focado em um hobby em específico (seguindo mais os passos de K-on!) do que um anime de Zumba. Na verdade ele está longe de ser um anime de Zumba, mas é algo que merece ser mencionado nesse texto porque, além de ser o meu favorito dentre os títulos que estão aqui, ele querendo ou não acaba despertando a vontade do telespectador de sair por ai caminhar, subir montanhas, visitar reservas, entrar em contato com a natureza, e fazer um pouco de exercício ao ar livre. Apesar dele não ter sido um fato determinante para que eu começasse a caminhar pelas ruas da minha cidade, algo que faço com dada frequência há já alguns anos, não há como negar que ele exerce alguma influência no telespectador nesse sentido.

E também, acho que animes de esporte de um modo geral possuem esse feito de motivar o telespectador a sair do sofá da sala e fazer algum esporte ou exercício, o que, no final das contas, é o principal motivo por trás de um anime de zumba. Mas, obviamente, não dá pra simplesmente listar todo anime de esporte porque, não só a lista seria muito grande, como eles são um fenômeno bem diferente por si só.

Claro, assim como Issho ni Training e Anitore, as personagens de Yama no Susume possuem certo apelo como waifus, mas de um modo bem diferente, mais parecido com outras comédias moe que se tem por ai. Apenas Kaede Saitou, a mais velha e ativa do grupo, é erotizada em cenas bem raras e específicas dentro da série, e ainda assim é forçar beeem a barra comparar essa sexualização com a dos outros dois.

O anime acaba abordando de maneira direta e indireta vários aspectos do montanhismo. Encarando-o como um exercício físico que pode ser feito por qualquer um, uma prática esportiva bastante exigente, um ato turístico e de apreciação da natureza, e até mesmo um exercício capaz de unir as pessoas em comunidade. Até o momento, a série rendeu três temporadas, com um episódio especial lançado entre cada uma delas.

Malhe até a Akemi te olhar desse jeito.

E, obviamente, Dumbbell Nan Kilo Moteru? pegou a essência do gênero Zumba e o contextualizou com uma narrativa, não apenas utilizando as personagens como um instrumento de demonstração dos exercícios que a série quer sugerir ao seus telespectadores, mas como personagens de fato.

Cada uma delas têm um motivo diferente para estar na Silverman Gym e querer se exercitar. Hibiki está preocupada com o seu peso; Akemi é simplesmente tarada por músculos (e uma entusiasta por Fisiculturismo); a família de Ayaka é dona de um ginásio/escola/centro de treinamento de boxe e, portanto, ela vê a academia como um treinamento auxiliar para o bom rendimento esportivo; a russa Gina parece estar mais preocupada em exercitar-se para adquirir força física; e por último a Tachibana-sensei quer fazer musculação ̶p̶r̶a̶ ̶f̶i̶c̶a̶r̶ ̶g̶o̶s̶t̶o̶s̶a̶ porque se preocupa com a sua aparência física.

Não há como negar que as cinco protagonistas da série são atrativas, cada uma da sua forma, cada uma com o seu próprio apelo, ou que são elas que entram no foco da cena sempre que o anime decide demonstrar um novo exercício ou, no caso do final de cada episódio, chamar o telespectador para praticar algum exercício junto das garotas, mas de forma alguma a série o faz de maneira tão hiper-sexualizada, ou digna de vergonha alheia, quanto Issho ni Training ou Anitore. O que para uma parcela considerável do público é uma benção.

E esse não é nem de longe o único acerto do anime. A série está, o tempo todo, buscando novas formas de inserir em sua trama e de apresentar o seu tema aos seus telespectadores. Seja simulando programas de televisão, fitas de exercícios típicos dos anos 80/90, levando as suas personagens a lugares variados, como parques, trilhas, piscina pública… Enfim, ainda que a Silverman Gym seja a locação central do anime ela nunca se torna esse lugar comum dentro da série, de forma que os episódios acabam não seguindo uma estrutura bem definida e previsível.

Mas o ponto principal que torna a série tão interessante é a forma como ela trata o exercício físico. Não apenas como uma forma de emagrecimento, um instrumento para construir massa muscular, ou mesmo como um possível hobby e área de estudo de alguém, mas como filosofia de vida. Apesar de ser bastante sutil, o anime sugere desde mudanças alimentares até uma represada na rotina de seus telespectador, incentivando eles a não apenas buscarem uma forma balanceada e nutritiva de se alimentar, como também adotarem mais proativos em seu dia-a-dia. Deixando bem claro que não há motivos para restringir exercícios físicos a apenas ao ambiente da academia.

Por conta disso, e pelas coisa que já mencionar no início do texto, não é de se admirar que Dumbbell Nan Kilo Moteru? tenha sido tão bem recebido pelo público geral. Não apenas incentivando as pessoas a fazer mais exercícios como pura e simplesmente sendo um anime divertido e leve de se assistir.

Por fim, se as coisas continuarem andando do jeito que estão, eu não me surpreenderia se logo mais anunciassem uma segunda temporada de Dumbbell, ou mesmo um anime baseado no mangá de Synecdoche chamado Elf-san Wa Yaserarenai.

Imagem tirada do próprio Twitter do autor.

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Marcelo Hagemann Dos Santos
Marcelo Hagemann Dos Santos

Written by Marcelo Hagemann Dos Santos

Rapaz de humor duvidoso que entrou essa de escrever sobre animes recentemente. Ex-aluno de filosofia e graduado em Letras, mas sempre estudando.

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