Coisas que me irritam profundamente em Rinshi!! Ekoda-chan
Se há uma coisa que deveria ser melhor apreciada no mundo dos animes são os animes de curta duração, ou seja, os animes cujos episódios duram não muito mais do que cinco ou sete minutos. Não que eu acredite que episódios de tamanho tradicional, de cerca de vinte minutos, sejam muito longos ou que haja algo de errado com eles.
Porém, animação custa caro, dá trabalho, requer um investimento inicial que nem todo o projeto tem o luxo de ter, fazendo com que o modelo tradicional seja mais adequado para projetos maiores (tanto em orçamento como em escopo) e de menor risco financeiro, ou melhores projeções de vendas.
Enquanto isso, o formato de animes de curta duração é mais amigável para narrativas que não necessitam de tanto tempo para serem desenvolvidas, projetos de menor porte, mais experimentais, testes mercadológicos, séries com baixas expectativas de vendas, ou mesmo séries que apresentam ao telespectador muita informação (principalmente visual) em pouco tempo, algo que gosto chamar de animes densos.
Nessa primeira temporada de 2019, tivemos, entre alguns outros, uma proposta que parece adequar-se perfeitamente àquilo que o formado de animes curtos mais favorece, e aqui estou falando de Rinshi!! Ekoda-chan.
A primeira vista percebemos que o anime foge bastante daquilo que consideramos tradicional para qualquer série animada: Cada episódio é dirigido por um diretor diferente, o character design e a estética da animação são únicas para cada episódio e a Ekoda, protagonista dessa série, possui uma dubladora diferente para cada episódio. Tudo isso gira entorno da proposta de cada diretor crie, ou expresse, de maneira independente, sua própria interpretação da personagem principal.
A princípio Rinshi!! Ekoda-chan poderia ser um excelente exemplo de como esse formato pode ser trabalho, mas tenho algum problemas quanto esse projeto.
O primeiro ponto é que todos os diretores envolvidos no projeto são homens. Não que eu ache que não pudesse ter homens no projeto, mas ao restringir a direção a uma seleção exclusivamente masculina também se restringe a diversidade das visões sobre a personagem que a série apresenta.
Pode se argumentar que ao mesmo tempo em que todos os diretores são homens, todas as dubladoras da Ekoda-chan são mulheres (por motivos bem óbvios), e que isso equilibraria um pouco as coisas. Mas é bastante infantil pensar que a dubladora e o diretor possuem o mesmo peso de influência perante o projeto. Ainda que o diretor ouça opiniões de mulheres próximas a ele, e da própria dubladora que está trabalhando ao lado dele no projeto, isso por si só não as torna coprodutoras do que está sendo criado (O mais próximo de ser uma exceção seria o episódio 10, em que uma artista foi convidada pelo diretor para produzir o episódio) e quem realmente toma as decisões finais, e mantem o controle da direção é ele.
E isso pode ser observado na própria série vendo quantos episódios nos fazem lembram que o fato da Ekoda-chan ficar pelada é algo sensual e erótico. O que é um ponto válido, porque a Ekoda-chan é uma mulher que se encaixa nos padrões de beleza mais básicos, mas isso sendo abordado constantemente e da mesma forma se torna bastante cansativo e acaba diminui a essa liberdade que a Ekoda-chan tem a algo meramente ligado a sua sexualidade.
Além disso, muitos dos episódios abordam certos temas de maneiras bem similares. E a maioria deles gasta muito tempo ressaltando o motivo econômico da Ekoda-chan ficar pelada, o que faz com que muitos episódios sejam muito parecidos entre si, acrescente pouco o que já foi explorado pelos episódios anteriores e que repliquem de forma fiel a lista de motivos que Ekoda dá ao leitor para o fato dela estar sempre pelada.
Fora isso, a série supõem que o telespectador já conhece a Ekoda-chan, e que esse não é o primeiro contado dele com a personagem, já que, além do mangá de mesmo nome, a série já fora adaptada para televisão como animação em 2011 (também como um anime curto) e uma adaptação com atores reais em 2014, e teoricamente essa suposição permite que os diretores explorem melhor a sua visão da personagem sem gastar tempo apresentado ela aos telespectadores (obs: nem todos os diretores trabalham dessa forma), o que é obviamente algo bom… Mas…
Tanto o mangá de Ekoda-chan como o anime de 2011 nunca foram licenciados no Brasil (e possivelmente em nenhum lugar fora do Japão), e, considerando que a proposta vai numa direção muito diferente do que interessava ao público ocidental na época, não seria surpresa se nenhum fansub tivesse traduzido a obra até dado momento, fazendo com que esse projeto de 2019 seja de fato o primeiro contado do público ocidental a essa personagem. *(Até dá para achar o mangá traduzido em inglês, mas só os três primeiros capítulos)
E é de fato uma péssima apresentação pois, não apenas a maioria dos diretores não estão preocupados em apresentar ela ao público, como que o fazem acabam apresentando-a de maneira bastante rasa, citando sempre os mesmo pontos que, nessa altura do texto, você deve saber muito bem quais são.
Mas, apesar disso tudo, eu não acho que seja um completo desperdício como projeto, ou que a série não tenha seus pontos altos. Por exemplo, o primeiro episódio consegue resumiu de maneira bem interessante do que se trata a Ekoda-chan, já o segundo nos apresenta de forma bastante singela o dilema de Ekoda em ser a amante de um homem que não pretende desmanchar o outro relacionamento. Ou mesmo o quinto episódio, que sai bastante do lugar comum e anima de maneira divertida a luta entre nossa protagonista e um mosquito que invadiu o seu quarto. Isso sem mencionar as diversas estéticas apresentadas durante a série que, muitas vezes, mereciam um anime próprio.
Por fim, ainda que eu tenha sérios problemas com a forma como esse projeto fora concebido e posto em prática, e pelo modo como a mídia vem sendo licenciada e consumida aqui no ocidente nas últimas décadas entre em frente de sua total apreciação, considero Rinshi!! Ekoda-chan como um bom exercício de experimentação, que não seria possível aos moldes habituais de animação e vale a pena dar uma olhada. Afinal, são só alguns minutinhos (se você ignorar as entrevistas com os diretores… hehehe).