31/10/2023 — C*
A vibração percorrendo meu corpo rapidamente me despertou.
Abri os olhos, afastei-me do colchão e o tremor parou.
Não fora um raio que provocara tal trepidação. Não estava chovendo e nem sequer havia ameaça de chuva naquela naquela madrugada até então silenciosa.
Escutando o som de um alarme ao fundo sai de perto de minha cama. Calcei um chinelo e andei até a cozinha. Sem perder muito tempo peguei um como d’água e voltei na direção do meu quarto. Bebericando, me aproximei da janela.
Nada de estranho, apelas vários alarme tocando ao redor da vizinhança. Cada um em seu próprio ritmo.
Reconhecia alguns daqueles sons, uns eram alarmes de carros outros, poucos, eram de residências.
Não conseguia imagina o porquê deles terem disparado daquela forma. Talvez por conta do tremor, era normal que um alarme de carro disparasse após um raio próximo, mas não parecia ser o caso, nem havia sinais de algo anormal ter ocorrido em minha rua ou qualquer lugar próximo dali.
Voltei para cama logo depois de secar o copo e colocá-lo em qualquer lugar mais ou menos perto da cama.
Deitei-me novamente, mas não consegui pegar no sono. Fechei os olhos por algum tempo mas, talvez pelo barulho na vizinha, não me aquietei.
Não sei quanto tempo depois ouvi um voz, parecia estar muito longe e de ser a de uma mulher.
Um berro.
Só.
Sumiu tão rapidamente quanto surgiu.
Levantei-me mais uma vez, dessa vez fui ao banheiro, sem pensar muito em razões. Levei minha mão até o interruptor, acionei-o mas a luz não veio. Tentei novamente; mesmo resultado.
Dessa vez tentei ligar a luz do corredor, mas não obtive um resultado diferente.
Fui até a cozinha e a mesma coisa. Nenhuma luz acendia. Abri a geladeira e também nada.
Estranhei. Até agora pouco havia luz em minha rua. Não lembro se acendia a luz quando busquei o copo mas certamente os postes lá de fora estavam ligados.
Pensativo, olhei novamente para fora, dessa vez sem me aproximar muito da janela.
Mesmo de longe, consegui ver, ou não ver, que lá fora tudo estava tão escuro quanto ali dentro.
Os sons também cessaram. Não por completo, verdade, mas naquele momento poucos alarmes soavam.
Sentei novamente em minha cama. Esfreguei meu rosto. Sabia que estava agitado demais para dormir e não conseguiria pregar os olhos tão cedo.
Respirei fundo e suspirei. Decidi então que iria, ao menos tentar, descobrir o que havia acontecido. Tantos alarmes não disparariam, e a luz não cairia, sem ter algum motivo.
Cobri os ombros, calcei meu tênis mais simples e fui para o corredor do lado de fora do meu apartamento.
Passei por perto da escada, encostei uma mão na barreira que separava o vão da escada do restante do corretor e arqueei o meu corpo para frente. Olhei para cima. Olhei para baixo. Nenhuma movimentação, nenhuma luz ou barulho. Nenhum sinal de qualquer vizinho.
Caminhei até a janela do corredor, esperando ver algo diferente do que poderia ser visto das janelas de meu apartamento.
O ângulo de vista era realmente diferente, mas a visão que tinha da rua não muito. Uma verdadeira escuridão, nenhum poste de luz aceso, sem mesmo a luz de um farol de carro passando por aquela rua. Nenhuma sequer alma viva se fazia presente naquelas bandas.
Ninguém se importava com a queda de luz no horário de dormir ou com os constantes barulhos de alarmes que ecoavam por toda a vizinhança. Eu suponha.
Silêncio.
Completo silêncio.
Notava agora que nem sequer os alarmes de carro soavam naquele momento. Não se ouvia nada, nenhum gato, pássaro, vento ou balançar das árvores.
Foi como se o tempo tivesse parado quando me aproximei daquela janela. Tudo que conseguia ouvir era o som de minha própria respiração e meus batimentos cardíacos.
Mas um som rapidamente despedaçou a paralisia sonora.
Um berro ecoou em todo o corredor agredindo os meus ouvidos.
Virei-me. Fui rapidamente até as escadas e pisando no primeiro degrau olhei para cima.
O berro desaparecera, mas sabia que ele tinha vindo ali de cima, de bem perto, um ou dois andares acima de mim.
Subi um andar, desesperadamente bati em cada uma das três portas que estavam ali.
— Alguém em casa?
Não fui respondido.
Subi mais um andar, esperando repetir minhas ações no andar anterior, mas imediatamente me deparei com uma porta entreaberta.
Aproximei-me com cautela. Andei até a porta e perguntei se alguém estava ali. Sem resposta continuei:
— Ouvi um berro agora a pouco. Está tudo bem?
Nada.
Abri a porta devagar e fui entrando aos poucos. Logo no primeiro passo me deparei com um copo caído no chão, que ao meu chute sem querer rolou para frente e bateu em algo.
Não conseguia enxergar nada naquela penumbra. Apenas vultos disformes espalhados pelo chão da cozinha.
Entrei de vez no apartamento, deixando a porta aberta atrás de mim, permitindo que uma miséria de luz entrasse pelo apartamento.
Ainda não era o suficiente para enxergar algo de fato. Sendo assim, ensaiei ligar a luz do teto, me guiando pela memória muscular até o interruptor, mas este não acionou as luzes. A energia não devia ter voltado até aquele ponto.
Arrastei meus pés para dentro do apartamento, tomando cuidado para não pisar em nada do que estivesse no chão. Guiando-me mais pela memória do que pela minha visão, segui em direção ao quarto com os braços bem espaçados para não me esbarrar em nada.
Passando pelo corredor, a luz do céu noturno iluminava as paredes daquele apartamento timidamente dentre fracas sombras que dançavam devagar.
Quando entrei no quarto dela, logo vi que a janela estava aberta e que uma fina cortina balançava com o vento.
Estava tão desarrumado quanto a cozinha, provavelmente ainda mais desordenada. A cama estava revirada, com o lençol decorado com livros abertos das mais diversas maneiras, e acima dela uma prateleira fora quebrada em umas partes, provavelmente onde estavam os livros originalmente.
Do outro lado do quarto, o armário de roupas estava com suas portas abertas e as que deveriam estar dobradas dentro dele estavam caídas para fora, como se formassem um riacho montanha abaixo.
Segui aquela trilha de roupas com os olhos até o chão do quarto, movendo meu olhar até o único canto que a luz da lua não batia, logo abaixo de meus pés. Foi ai que a vi.
Eu precisava sair dali. Corri para fora daquele apartamento o mais rápido que pude após me livrar no choque inicial. Não me importei em não pisar em nada, o que resultou em um belo tropeço e na quebra daquele copo que estava perto da saída do apartamento.
Não me importei, levantei-me novamente, em tão pouco tempo quanto levou-me a ida ao chão. Corri para escada e desci rápido os dois andares até o meu apartamento, pulando degraus e fazendo muito barulho com os pés.
Fui até a porta do meu apartamento, agarrei a maçaneta e simultaneamente levei minhas mãos até um de meus bolsos.
Meu corpo gelou ao perceber, ao mesmo tempo, que não carregava a chave da porta comigo e que eu não a trancara quando sai para o corredor.
Burro, idiota.
Graças ao meu descuido agora o meu próprio apartamento não poderia ser um lugar seguro. Todo o lugar daquele prédio não era mais. Estava condenado. Eu precisava sair ali o mais rápido que pudesse.
Corri até o meu quarto, apanhei o meu celular e sai de volta em direção das escadas, correndo até o térreo da mesmo forma que desci até o meu andar.
Sai pela porta de frente e corri direto para rua, parando no meio dela, ficando afastado de qualquer árvore, carro, lata de lixo, sei lá, qualquer objeto que alguém poderia usar para se esconder.
Olhei ao redor, a rua estava completamente vazia, apenas alguns poucos carros estacionados próximos das calçadas. Um ou outro alarme tocando ao longe, tão distante que nem sequer o escutaria se ainda estivesse dentro do prédio, ou mesmo próprio de qualquer coisa que abafasse um pouco o som, mas ninguém por perto, nem mesmo um sinal de algum animal… Ou o de celular.
Peguei o meu celular e encarei os ícones no topo da tela. Apenas o ícone da bateria de o alarme, nenhuma figura que indicasse que aquele aparelho pudesse se comunicar com outro.
Mesmo assim tentei ligar para alguém, primeiro para um dos meus contatos, depois para os números de emergência.
Nenhum deles funcionou.
Coloquei o celular no bolso. Precisava encontrar alguém e pedir ajuda o quanto antes.
Olhei mais uma vez ao redor na esperança de encontrar qualquer sinal de vida humana. Mas nenhum resultado novo.
Depois de me acalmar e esperar que meu coração batesse um pouco mais devagar, comecei a andar para frente, na direção contrária dos alarmes. Me concentrei em minha respiração, verificando se não estava muito ofegante ou se não fazia muito barulho.
Andei uma quadra inteira e, sem parar de caminhar, peguei novamente meu celular, mas antes que pudesse ligar a tela senti algo se movendo atrás de mim.
Tomei um susto, mas não gritei. Senti um frio percorrer na espinha e acelerei o passado colocando o celular de volta no bolso.
Ouvi novamente o som de algo se momento atrás de mim. O balançar súbito de uma árvore, uma lata caindo no chão, passos, o som de algo rasgando o ar.
Comecei a correr numa velocidade que nunca imaginei que pudesse alcançar.
Mas o que me seguia deveria ser mais rápido do que eu.
Conforme aumentava minha velocidade, mais e mais de sua presença manifestava-se em minha volta.
Parecia estar em todos os lados, em todas as árvores, atrás dos poucos carros. Correndo ao meu redor inclusive nos telhados das casas.
Olhei ao redor, para os lados, para cima e para frente. Podia ver vultos pulando de um lugar para o outro, encurtando a distância de forma lenta e progressiva.
Havia mais de um deles.
Mas não importava. Eu não iria deixá-los chegar perto de mim. Correria quantos quilômetros fossem necessários, mas iria me livrar deles, iria encontrar um lugar seguro. Um lugar onde estivesse a salvo.
Mas a minha confiança estava além das minhas capacidades.
No mais alto de todo o meu esforço meu pé me traiu.
Eu caí de boca no asfalto.
Rodopiei, rodei.
Não sei quantas vezes vi o mundo inteiro girar em torno dos meus olhos até que deitei imóvel no asfalto.
O corpo todo doía, ainda assim consegui me levantar parcialmente do chão, tirando apenas o tronco do asfalto. Uma pontada de dor na perna me impedira de movê-la.
Olhei na direção dos meus pés, um deles estava descalço e, esse mesmo, ensanguentado.
Em pouco tempo notei pequenos fragmentos de vidro espalhados pelo chão. Em algum momento de minha corrida os cacos penetraram na sola de meu sapado e alcançaram minha carne.
Minha mente podia estar focada em fugir, em correr, mas meu corpo não aguentara mais enfiar aquele objeto estranho, por menor que fosse, para cada vez mais dentro de mim.
Mas não. Eu não poderia me deixar por vencido ainda. Não iria deixar nenhum daqueles filhos da puta chegar perto de mim. Não, de jeito nenhum, eu não teria o mesmo fim que a porra da minha vizinha.
Tentei me erguer e consegui me por de pé, mesmo sem ter forças o bastante para encostar a sola ferida no chão, apenas as pontas dos dedos.
Olhei ao redor. Sabia que ainda estavam ali, que ainda iriam atrás de mim. Mas essa merda não ia chegar perto de mim não!
Continuei andando devagar, aos pulos na direção em que corria anteriormente, atento, observando qualquer movimentação, orientando meu corpo constantemente para direções diferentes, sempre evitando que algo se aproximasse pelas minhas costas sem que eu visse.
Mas puta merda, não importava o quão cauteloso fosse, não estava esperando por aquilo pular na minha direção.
Seu corpo magro, verdadeiramente esquelético, arqueado para frente, andando quase com quatro patas como um gorila, entrou no meu campo de visão, saindo de trás de um carro.
Tinha dedos finos e alongados, com pontas tão esdruxulas que pareciam garras de brinquedo. Suas feições eram disformes, não parecia ter olhos, nariz ou orelhas, mas um enorme boca recheada com dentes pontudos postos aleatoriamente em sua arcada dentária.
Estava cercado, não havia para onde correr. Em qualquer direção que olhasse um ou dois deles estavam lá, vindo em minha direção devagar, mas sumindo de minha vista assim que eu virava minha face na direção deles, como se meu olhar os machucassem de alguma forma. Definitivamente não queriam ser vistos.
Mas não importava o quanto eu lutasse, o quanto eu me esforçasse para mantê-los longe de mim. Estavam cada vez mais próximos, cada vez mais perto de minhas costas.
Era isso, não tinha mais jeito.
Aqueles últimos momentos da noite, lembrei-me da visão que tive no apartamento de minha vizinha, antes de sair em desespero para o lado de fora.
Semidespia a força de seu pijama, seu corpo, com exceção do quadril apontado para cima, espalhava-se pelo chão. Estava seca, mais do que magra, não havia qualquer traço de gordura ou carne por de baixo de sua pele. Seus lábios estavam rachados, seus olhos murchos direcionados para cima enquanto de sua boca aberta saía uma mistura grossa espumosa de saliva de vômito. E de suas nádegas para suas pernas e costas escoriam um sangue vermelho que brilhava como rubi sob a luz do luar.
Em breve eu teria o mesmo destino.
Bem-vindo à Goianinha.