31/10/2022 — Narina
O segundo turno da eleição para presidente não atrapalhou nossos planos, apesar de termos torcido para que essa disputa acabasse lá, no dia 2, já imaginávamos que teríamos, em nosso estado, um segundo turno na disputa para governador.
Foi pensando nisso que alugamos uma chácara, no interior do estado, por uma semana, do dia 31 até o dia 4 de novembro, para que o voto não atrapalhasse nossa viagem. Como era fora de temporada, os preços estavam bem mais em conta do que se e pegássemos aquele lugar durante as férias coletivas. E tivemos sorte, verdade dita, de nós cinco conseguirmos folgar naqueles dias. Afinal, depois que nos graduamos cada um foi para um canto diferente, e as oportunidades de se encontrar pareciam se tornar cada vez mais remotas.
Chegamos à casa não muito após o almoço. Paramos em um restaurante desses de buffet no meio da estrada, que servia uma nem um pouco incomum mistura entre a comida típica da serra Catarinense e a gastronomia brasileira.
Como foram cinco horas de viagem até ali, todos pareciam cansados, mais devagar do que o de costume, ainda cheios e sonolentos da farta comida do almoço. Ainda assim, após estacionarmos o carro ao lado da chalé, logo abrimos a casa, e descarregamos a bagagem do carro, levando as malas para dentro.
Eu fui direto para o quarto, depois de andar um pouco sentia que uma parte da preguiça havia indo embora. Abri a janela do quarto e dei uma olhada para fora.
Ninguém poderia dizer que aquele não era um lugar bonito. Ainda que não fizesse sol e estivesse meio nublado, a visão que tínhamos da serra era maravilhosa. Um grande descampado cercado por árvores altas e pontudas.
Dentro daquela propriedade, nossa chalé era a que ficava mais longe de tudo. Uma pequena casa enxaimel ao pé de um moro, e provavelmente a única que não tinha visão de nenhuma outra dentro daquele sítio. Era como se estivéssemos completamente sozinhos naquele lugar, um mundo à parte dos outros.
Antes de voltar para a sala onde os outros estavam, decidi fechar novamente a janela, pois, quando estávamos a caminho dali um de nós comentara que ouvira falar que havia muitos guaxinins na região, e não queria que nenhum bicho mexesse nas minhas coisas quando eu não estivesse olhando… e nem quando eu estivesse.
Mas quando eu puxei corrimento para fechar no vidro, a placa de madeira não saiu do lugar.
Tentei novamente, com ambas as mãos, fazendo bastante força, mas nenhum resultado. Era como se fizesse parte da moldura da janela.
Testei a outra metade da janela, e essa abria e fechava novamente. Mas de nada adiantaria fechar apenas um dos lados, pois uma janela meio aberta ainda era uma janela aberta.
Chamei os outros, e logo uma das garotas relatou que o mesmo tinha acontecido no outro quarto.
Olhamos a janela de perto, e parecia que ela fora pintada de verniz há não muito tempo.
— Será que o verniz colou a parte do vidro? — Perguntou uma das garotas.
— Pelo jeito… — Respondeu o que havia feito o aluguel. — Bom, eu vou ligar pro proprietário e vejo o que podemos fazer. Aqui não pega celular, mas ele me disse que poderíamos usar o telefone que está na sala para entrar em contato.
E assim fizemos.
O telefone era daqueles antigos de disco, todo preto com os números brancos, uma gracinha, mas era surpresa que ainda desse para fazer ligação num treco daquele.
O proprietário não demorou muito para atender, e a ligação também não durou muito.
— Ele acha que fez alguma besteira quando veio aqui mês passado pra dar uma ajeitada na casa. — Disse logo após desligar o telefone de soltar um longo suspiro. — Falou para não tentarmos forçar a janela ou pode ser que a madeira rache. Disse que dá pra consertar com um solvente que tem na casa dele, mas que só consegue vir aqui amanhã de manhã. A gente pode comprar o solvente se não quisermos esperar que ele nos ressarce, mas a única loja que teria isso fica há uma hora e meia daqui e teríamos que chegar lá logo, antes que feche.
— Ah, mas nem a pau. — Respondeu uma das gurias. — Não vamos perder o resto do dia só por conta disso.
— E como fazemos, então? — Perguntei. — Não dá pra dormir num quarto com a janela aberta. Há previsão de bastante frio essa noite, neve em alguns pontos da serra. Sem falar na quantidade de mosquito que vão entrar e fazer a festa se deixarmos sem fechar o vidro.
— Bom, podermos dormir na sala… Espaço pra isso tem.
Combinado estava. Andamos pela região, estendemos uma toalha na grama, cochilamos um pouco e tomamos café ali mesmo, próximo da casa. Aproveitamos até anoitecer, quando voltamos para dentro da chalé, fechamos as portas dos quartos e acendemos a pequena lareira da sala.
Tudo, com exceção das janelas dos quartos, estava em ordem e funcionando. Tínhamos bastante lenha para a lareira, o fogão e o forno, ambos à gás, funcionavam corretamente, e a geladeira, apesar de velha, estava perfeitamente conservada, sem nem mesmo gelo acumulado no freezer.
Jantamos na cozinha, após esquentarmos uma comida que trouxemos pronta. Depois disso voltamos para sala, puxamos os colchões dos quartos, fechamos toda a chalé e as portas da sala, assamos uns marxemelos envolta da lareira e conversamos até bem tarde.
Quando fomos dormir, o fogo da lareira já estava se apagando, emanando luz o bastante apenas para não deixar o interior em completa escuridão, ao mesmo tempo que nos surpreendia com pequenos estalos da madeira ainda em brasa se despedaçando.
Fiquei em um canto da sala, no sofá, enquanto os outros estavam nos colchões que trouxemos dos quatros. Podia ver todos daquela posição, ainda que apenas vultos.
Todos se cobriam com cobertores pesados, apesar de ainda estar quente por conta do fogo da lareira, sabíamos que a temperatura cairia gradualmente conforme a noite passasse. Não havia sistema de aquecimento na chalé, nem nada do tipo, apenas a velha lareira, e não queríamos deixá-la acesa até depois de dormirmos, seria perigoso, ainda mais com tanta coisa inflamável ao redor dela.
Não sei quando foi que peguei no sono, mas sinto que fora rápido. Ainda cochichávamos depois de arrumados para dormir, mas não lembro do que falamos nessas últimas horas…
Acordei no meio da noite. Não sei certo qual som me acordou, mas lembro de ouvir barulhos vindo de cima, do que seria o sótão daquele lugar. Um ranger assustador de madeira, amplificado pelo silêncio da madrugada.
Imaginei que fosse apenas a madeira mudando de temperatura e, por consequência, de tamanho, mas era a primeira vez que ouvia aquele barulho tão alto, tão perto.
Logo o som parou. Mas o silêncio não veio em seu lugar, em troca ouvia o vento tocando a janela, as árvores sacudindo ao fundo e o respirar de meus colegas dormindo próximos de mim.
Foi naquele momento que vi, com o canto do olho, um vulto, do tamanho de uma mão, descendo a parede na direção do encosto do sofá. Uma aranha, com pernas finas e corpo miúdo, dançava ali em cima, andando de vagar, movendo uma perna de cada vez.
Minha primeira reação foi a de pular da cama improvisada, a segunda de atirar um mão na direção do aracnídeo e virar o corpo para o outro lado, e a terceira a de simplesmente gritar.
Meu corpo não respondeu a nenhum dos meus impulsos, continuou perfeitamente imóvel, como se ele estivesse congelado no meio da noite.
A aranha continuou descendo, devagar, em minha direção, até que alcançou o meu corpo, e passou por cima de minha barriga. As suas pernas faziam um barulho estridente, mas baixo, um tec tec constante e agoniante.
Ela não parou, e continuou seguindo naquela direção até subir de vista. Tentei acompanhar ela com o olhar, pois apenas ele respondia aos meus comandos, mas não conseguia encontrá-la, havia sumido completamente nas trevas do quarto.
Em vez de vê-la, um bico pontudo e curvo entrou no meu campo de visão, surgindo bem próximo ao meu rosto, quase tocando o meu olho esquerdo. Assustei-me, mas meu corpo continuou paralisado.
O pássaro andou para frente, parecia estar em cima do sofá, e rapidamente abriu as asas e levantou voo, sem fazer qualquer barulho, atravessou a sala e pousou em cima da porta que dava para a cozinha, agarrando-se na parede com as garras.
Acompanhei o seu trajeto com o olhar, levando-o para a direção dos meus pés, apenas para encontrar um terceiro animal. Era uma espécie de mamífero, uma mistura entre uma raposa e um koala.
Escalou o sofá, e ficou de pé em cima dos meus. Olhava diretamente para mim com seus olhos brancos, vazios, arregalados, movendo a cabeça de um lado para o outro, como se estivesse confuso com a minha presença.
Ele então pulou para o lado, um salto magnifico que o fez subir de vista e chamar vinha visão naquela direção.
Em um instante, e apenas em um instante, vi dois olhos enormes, bem próximos do meu rosto, brancos e bem abertos, encarando-me de perto.
A figura sumiu tão rápido quanto apareceu. Ainda assim, sentia meu coração querer acelerar, bater mais rápido por conta do susto, mas ele não conseguia pulsar na velocidade que queria, era como se algo estivesse, dentro de mim, segurando o órgão para que ele não se movesse, para que acompanhasse a paralisia do restante de meu corpo.
Era dolorido, sufocante, sentia como se meu peito pudesse implodir a qualquer momento, como seu eu estivesse há tempo sem conseguir respirar.
E foi no meio da dor, da angustia, da pressão extracorpórea do ar frio ao redor de mim, me amassando e esmagando meu corpo que percebi, olhando na direção dos meus pés, a porta da cozinha aberta, e atrás dela uma figura, bem maior do que as anteriores, no meio do completo escuro, parada com os braços em paralelo ao corpo.
Era um vulto do que parecia ser um homem grande e forte, completamente imóvel do outro lado da porta. Ficou ali por alguns instantes, até que sua imagem foi sumindo gradualmente, até desaparecer.
Mas sua presença não foi embora, pelo contrário, entrara para dentro da sala, e ocupava o espaços entre meus companheiros.
Estava ele, o vulto, ao lado de um de meus amigos, curvado sobre ele. Era uma figura estranha, seu corpo parecia todo humano, com exceção de um detalhe: o rosto.
Faltava em sua face traços que fariam humano. Não tinha olhos nem nariz, boca ou mesmo sobrancelha. Em vez disso, sua cabeça acomodava uma pequena tromba, maleável e desengonçada, que utilizava para tocar o rosto de meu colega.
Ouvia o barulho do aspirar da criatura com bastante clareza. Sugadas intercaladas com o som de um toque molhado, do ruído de bolhas de sabão estourando.
Parecia procurar algo, e o fazia com bastante vigor. Fuçava cada canto da face — ouvido, boca, nariz — afim de encontrar algo que não estava lá.
Foi de um em um, começando pelo o mais longe de mim, até que ficou alerta, mudando sua postura mais cuidadosa para uma mais alvoroçada. Movia o corpo de um lado para o outro, como se com olhos ocultos procurasse por algo que só ele conseguiria ver.
Então parou, afastou o corpo, e colocou as mãos para cima, com os dedos bem abertos, ponto para agarrar algo que estava em sua frente.
Com cuidado, devagar, foi levando a mão na direção do rosto do meu amigo, até alcançar sua boca, e então pinçou algo de dentro dele.
Puxou, com a mesma calma de antes, uma aranha de dentro da boca de meu colega. Segurava-a com a ponta dos dedos, por uma, e apenas uma, de suas pagas.
A aranha agonizava, tentava correr, movendo freneticamente suas patas no ar como se chutasse para todos os lados. Completamente em vão.
A criatura foi erguendo o animal aos poucos, arqueando seu corpo para trás, levantando o que seria seu queixo e abaixando sua nuca.
A aranha já estava no alto quanto a tromba começou a mudar de posição, inclinando-se para trás como fazia o restante do corpo da besta. Foi no momento que a ponta da tromba bateu na testa da criatura que ela revelou sua grande boca.
Abriu-se rapidamente, triplicando o tamanho da cabeça do vulto, mostrando dentes longos, pontudos, afiados e desalinhados.
A criatura largou a aranha de seus dedos, que caiu prontamente dentre seus dentes em sua boca. O vulto abocanhou o animal e o engoliu logo em seguida, sem sequer mastigar.
Arqueou-se novamente para frente, voltando a posição inicial, movendo os seus dedos como se eles tivessem saído de lugar.
Subitamente olhou em minha direção, como se um barulho tivesse chamado sua atenção.
Não ouvi nada, apenas o som de suas narinas se agitando novamente, de sua respiração pausada e pesada.
Ele andou em minha direção, passado por cima daquele de quem tirara a aranha de dentro do corpo, mas sem tocá-lo.
Arqueou-se sobre mim, aproximou o seu rosto do meu. Pude então notar detalhes de seu corpo que até então passavam despercebidos.
Não possuía olhos, de fato, mas as cavidades estavam ali, ainda que cobertas por pele.
Havia marcas bancas em seu rosto, que levemente brilhavam no escuro. Pintavam-lhe os traços que lhe faltavam em sua face, ao mesmo tempo que desenhavam a metade superior de um crâneo humano.
Ele passou a me inspecionar, da mesma forma que fizera com os meus camaradas.
Não. Não era verdade. Estava mais agressivo, mas agitado, como se soubesse que aquilo que procurava estava ali, dentro do meu rosto, em algum de meus orifícios.
Tateou minha pele, inicialmente apenas com sua tromba, depois também usava as pontas de seus dedos, para após inspecionar cada um de meus orifícios faciais agarrar meu rosto com força e pressioná-lo contra o dele.
Ficou naquela posição por alguns instantes, deixando a falta de seus olhos na frente do meu, como se me encarrasse, como se buscasse algo em meu olhar.
De um instante para o outro, ele afastou o seu rosto do meu, apenas um pouco, sem aparente agressividade, e rapidamente jogou sua face para trás, livrando-se da tromba, revelando um segundo rosto, e desnudando sua enorme boca, assim como seus dentes longos e tornos, que sem nenhuma paciência ritualística usou para me abocanhar na sequência.
…
Acordei no susto. Meu colocação estava acelerado como nunca, minha respiração pesada, e minha pele molhada de suor.
Afastei as cobertas de cima de mim, colocando-as por cima de minhas pernas. Olhei ao redor, e percebi que ainda estava no mesmo lugar, na mesma velha e charmosa chalé. Mas, dessa vez, todo o ambiente estava aberto, coberto pela luz matutina.
Olhei para o lado, e rapidamente encontrei uma de minhas colegas, ainda dormindo, com um traço de baba escorrendo em seu rosto.
Era a única naquela sala além de mim.
Voltei a mim, ri em um só suspiro da cena que vi, e me acalmei.
Respirei fundo e agradeci por ter tudo sido um sonho.
Levei a mão ao peito e me livrei do restante da coberta. Coloquei o corpo para o lado e me levantei do sofá, sem fazer barulho, sem acordar minha amiga.
Andei devagar até o quarto, seguindo a porta que estava aberta. Aproximei-me da janela, e puxei a aba do vidro que outrora estava emperrada, que deslizou com suavidade.
Voltei para sala me perguntando que horas eram. Não deveria ser assim tão tarde, ou já teriam nos acordados, ao mesmo tempo, duvido que o proprietário chegara na chalé junto com o nascer do sol.
Foi chegando na sala que ouvi, vindo da cozinha, o apito de uma chaleira. Segui o som sem pensar duas vez, passado rapidamente pela sala e entrando na cozinha sem me importar em fazer barulho. Andando na ânsia de beber um café.
Quando entrei, me surpreendi com a figura de um homem, perto da pia ao lado do fogão, baixinho e bombado, vestindo uma camisa branca sem mangas e um short jeans, com certeza nenhum dos meus colegas.
Não tive tempo nem de reagir, de chamar a atenção daquele homem e nem de recuar para trás. O homem percebeu a minha presença e se virou, revelando segurar uma jarra de vidro, quase transbordando de café puro, recém feito.
O café atraiu a minha atenção por um instante, mas apenas por um instante. Foi após virar-se por completo em minha direção que o homem então levantou a jarra para cima, quase na altura do rosto, o que fez meu olhar subir e focar em onde deveria estar sua face.
Lá estava ela, cobrindo metade de sua cara, uma tromba curta e carnuda escondia a maioria de suas feições, enquanto sua pele cobria seus olhos.
Então, sem abrir a boca, e gesticulado de maneira amigável, um som nasalado ecoou de suas trombas para fora do corpo, pairando no ar a pergunta:
— Aceitas um cafezinho?