31/10/2021
Fome apenas não seria capaz de descrever aquela sensação. Eu estava faminto, de fato, minha boca salivava como nunca, pingos caiam em minha camisa listrada e no frio piso que tocava meus pés descalços.
Mas não era qualquer comida capaz de saciar, ou mesmo aliviar, aquela ânsia. Botei na boca os restos de um jantar, verduras, algumas frutas recém lavadas, mas o mero toque da comida em meus lábios escorridos causava repulsa em meu corpo. O estômago gritava, pedindo por algo diferente, algo que minha cheia geladeira não poderia oferecer.
Precisava de algo fresco, ainda não cozinhado ou assado, nem mesmo frito poderia ser. Tinha que ser mais… cru, isso, algo que parecesse ainda vivo.
Saí de casa, pela primeira vez em uma manhã ventosa, em busca de um café da manhã apropriado para aquelas tripas exigentes.
Andei…
Logo encontrei um balcão de vidro, numa venda qualquer. Vazio. Apenas um vendedor, vestindo um avental sujo de sangue, gordura e fuligem, por cima de uma camisa polo de cor laranja. Aproximei do balcão e me deslumbrei pelo festival de carnes que ali estava exposto. Carnes de todas as formas, todos os tamanhos e todos os tipos deitadas em um tapete de pedras geladas.
Olhei para o vendedor, ele sorriu de volta para mim, e já sabendo o que eu queria, sem que levantasse a minha voz, estendeu-me uma coxa de carne dinossáurica, que segurei pelo osso exposto com apenas uma de minhas mãos.
Rapidamente me afastei do balcão e me dirigi a uma mesa redonda próxima dali, semicoberta por um guarda-sol torto, decorando com as mesmas cores daquele vendedor, assim como sua aparência sanguinolenta também replicava.
Devorei aquele estranho pedaço de carne ali mesmo. Nunca havia comido algo igual, apesar de cru a carne parecia temperada, o sabor apimentado dela ecoava em minhas papilas, aguçando minha vontade. Deglutia aquele lanche cada vez mais rapidamente, abrindo mais e mais a minha boca, mastigando menos e menos, até que passei a engolir pedaços inteiros, utilizando meus pontiagudos dentes para rasgar e despedaçar o músculo.
Num piscar de olhos apenas ossos quebrados sobravam em minhas mãos. Larguei-os de qualquer maneira e repousei meu corpo pesado do alimento na cadeira de plástico daquele quiosque e fechei meus olhos por um momento.
Sentia satisfeito, ao mesmo tempo o meu corpo estava frio. Sentia um estranho formigamento em minhas pernas e braços. O coração batia pesado, devagar, como se não tivesse força o bastante para bombear sangue para as extremidades.
Abri os olhos duas vezes, deparando-me com o vulto do sombreiro fazendo o seu trabalho.
Precisava sair dali, daquela sombra, ao menos. Empurrei meu corpo com o pé para trás, afastando a cadeira da mesa, e expondo meu couro morno aos mais fortes raios solares.
Aquilo me vitalizou. Meu sangue corria rápido novamente. Apaguei por um segundo, e quando acordei estava quente mais uma vez. Em igual, o desejo pela carne viva voltara a aguçar os meus sentidos. Energizado, precisava de mais comida para me manter
Virei meu longo fuço para o balcão das carnes, apenas para me deparar com um enorme fila. Se antes a praça estava vazia, agora se enchia com outros iguais a mim, outros que tinha essa mesma necessidade.
Levantei-me e caminhei com passos largos ao lado da fila. Andei, andei e andei, esquivando-me dos olhos esfomeados dos podres gulosos que esperavam por sua vez.
Não importava o quão mais rápido andasse, nem mesmo se corresse, não conseguiria alcançar o final da fila, e furá-la não me parecia ser uma opção. A menos é claro se quisesse me tornar o próximo prato.
Impaciente fugi da multidão e passei a caminhar por uma mata seca, quase queimada, que tangenciava a cidade. Precisava haver ali algo que eu pudesse consumir, algo que conseguisse saciar aquela fome.
Prossegui a caminhada por um bom tanto. Trocando devagar a energia de antes pela fadiga e o calor do sol, que mais parecia queimar meu corpo de dentro para fora.
Sai de baixo do sol assim que pude, me abrigando na sombra de uma árvore. Meu corpo foi aos poucos se habituado aquela nova temperatura, até que finalmente pude voltar-me a si, enxergando aquilo que estava em minha volta.
Repousava próximo de algo que parecia ser um lago, mas não podia dizer ao certo pois o que deveria ser o seu fim aparentava não ter forma definida. Por vezes dissimulando como se ziguezagueasse pelas árvores da floresta queimada, por outras encerrando-se precocemente em seu próprio meio.
Encarrar a lâmina de água que se tripudiava de um lado para o outro me fez perceber minha pele seca, os lábios já rajados, e os olhos quase lacrimejando pela falta de umidade no ar, de modo que me pareceu ser boa ideia impregnar minha face com aquela água, ainda que fosse suja ou barrenta.
Aproximei-me, devagar, com a cabeça próxima ao chão e mergulhei meu rosto na beira sem pensar duas vezes. Abri os olhos, mesmo de baixo d’água, e vi que ali dentro ela não se agitava como na superfície. Estava calma, serena.
Com visão cristaliza pude ver a vida aquática que ali vagava. Lesmas, pequenos caranguejos e algumas algas de cor indefinida. Mas mais importante, navegavam ali em baixo, por meio dos bravos raios de sol que venciam as barreiras impostas pelo espelho d’água, peixes, dos mais variados tamanhos e comprimentos.
Imediatamente a fome me dominou novamente. E sem tartamudear empurrei o meu corpo para dentro do lago e fui atrás daqueles animais frescos.
Não usava nem braços e nem pernas para transladar de lá pra cá, em vez disso utilizava a força de toda a longitude de minha espinha dorsal para controlar meus rápidos movimentos aquáticos.
E rápido era. De um instante para outro abocanhava um peixe seguido do outro, não me importando em mastigá-los ou despedaçá-los. Apenas engolia com investidas precisas.
Após finalmente saciar aquela temível fome, deixei-me boiar por alguns instantes, permitindo que o próprio fluxo das águas me carregasse. Colocando apenas meus olhos para fora observei as criaturas terrestres que circundavam aquelas águas. Capivaras.
Peguei-me pensando no como seria fácil mordiscar uma pelas patas, de surpresa, puxá-la para a água, para que quando desistisse de si mesmo pudesse provar do sabor de sua carne.
Mas antes que imaginasse, ou fosse seduzido pela gula a tentar aquela genuinamente nova experiência culinária percebi que elas se espantavam, fugindo para as terras mais altas, ficando fora do alcance das minhas presas.
A razão ficou clara de imediato. Não por um descuido meu, por terem percebido a minha presença ou sentido o agitar das águas que o meu corpo provocava, mas sim pela aproximação daqueles que, como eu, juntavam-se àquela nova vida e arrastavam as barrigas nuas para dentro rio.
Meus amigos, Fabricio, Osvaldo, Raissa, Andressa… mesmos com seus novos corpos os reconheci de imediato, agora, crocodilianos, mas não os únicos a adentarem naquele rio. Gustavo, Elaine, Norberto, Oslo, Cidinha, Iene, Douglas, Ana… logo se juntaram a nós.
E quem sabe, juntos, pudéssemos sim caçar uma ou outra daquelas capivaras.
O tocar do despertador provocara meu acordar súbito. Meus olhos, ainda cansados do sonho, reclamaram assim que deram de encontro com a pouca luz que entrava em meu quatro pelas estreitas frestas da janela.
Em lençóis não freáticos contorci de gradualmente meu corpo de em direções aleatórias, tentando afastar a sonolência. E de forma automática estiquei o meu braço, e logo depois minha perna em oposta direção — mantendo o balanço — , para fora da cama, em curso do celular que ainda tocava, esforçando ao máximo para não cair da cama para o chão do quarto e não precisar me levantar para apanhar o celular, permanecendo deitado.
Depois de resgatar o celular e desconectá-lo do carregador, puxei todo meu corpo para de volta ao centro da cama, desligando o alarme no processo. Coloquei meu braço por cima dos olhos, fechando-os por mais alguns segundos, tentando afastar a leve dor de cabeça que me rondeava no pós despertar.
Respirei fundo, afastei o braço e abri novamente os olhos, devagar, adaptando-os à iluminação semidiurna. Quando finalmente abri completamente meus olhos, percebi uma luz azul banhar, intermitentemente, o teto branco acima de mim. Levei os olhos para o lado cama, onde largara meu celular com a tela para cima, e vi a fonte luminosa que piscava constantemente.
Peguei o celular com uma das mãos e o desbloqueei na mesma instância, levando um dedo da outra mão para o canto superior de tela, puxando as notificações para baixo. E lá estava ela, dentre as notificações cotidianas e inúteis de sempre havia uma notificação vinda do aplicativo do calendário, que me avisada do evento marcado para as próximas horas.
-É hoje. — Sussurrei para mim mesmo, lendo instantaneamente o que estava escrito:
31 de outubro, 10h00: Vacina Covid — Segunda dose.
-Bora virar jacaré.